Era uma tarde sem importância no escritório da Translog Express — empresa que entregava papéis com a mesma seriedade com que seus funcionários matavam tempo no cafezinho. O ar-condicionado tossia. A máquina de café gotejava um resto de expresso sem alma.
Adalberto, como sempre, passava despercebido entre as baias. Cabelos ralos, camisa bege, um crachá gasto preso com fita adesiva. Trabalhava no setor de cadastro, o tipo de função que ninguém sabe exatamente o que faz, mas que, quando falta, alguma coisa trava.
Sentado a duas baias dele, estava Douglas. Terno azul-marinho apertado, perfume forte, e aquele tipo de hétero que começa frases com “sou casado, mas posso elogiar, né?”. Mais adiante, no financeiro, havia o Breno — camisa polo, barba por fazer e o costume de usar fones mesmo quando não estava ouvindo nada.
Adalberto já sabia: Douglas e Breno não se suportavam, mas mantinham a máscara da cordialidade típica de ambientes onde o RH vigia tudo.
Naquele dia, na hora do almoço, Douglas esqueceu o celular em cima da mesa. Travado, mas não bloqueado — aberto na conversa do WhatsApp com Breno. Uma troca seca de mensagens sobre o rateio do estacionamento.
Adalberto, invisível até para as câmeras de segurança, deslizou até o aparelho. Com um gesto tranquilo, digitou:
“Eu fico te olhando e querendo dizer, mas não tenho coragem. Acho que estou apaixonado. Só queria que você soubesse. Desculpa se for demais.”
Enviou.
Saiu.
Sentou-se novamente e abriu uma planilha qualquer, fingindo revisar CPF.
O caos chegou quinze minutos depois.
Breno, com o celular em mãos, foi até a baia de Douglas. Segurava o aparelho como quem carrega um teste de gravidez positivo.
— Que porra de mensagem é essa?
Douglas, que voltava do almoço mascando chiclete, travou no passo.
— Que mensagem?
— Essa aqui, cara! — estendeu o celular, dedo tremendo.
Douglas leu. Empalideceu. Riu. Depois parou de rir.
— Isso é trote. Tu tá me zoando?
— Zoando? Foi você que mandou!
— Eu? Tá maluco? Eu sou casado, irmão! Tenho filha!
— E eu tenho nojo! Não vem com gracinha, não! Você que me olha torto desde que eu entrei! Tá achando o quê?
A discussão atraiu o setor todo. Teve supervisora gritando “vamos manter o respeito!”, teve gente filmando, teve estagiário indo buscar o RH.
Adalberto apenas levantou os olhos da planilha e suspirou, como quem lamenta a pressa do mundo. Depois se levantou, foi até o filtro, encheu um copo d’água e voltou calmamente, saboreando o espetáculo.
Na semana seguinte, Breno foi transferido pro setor de logística externa. Douglas passou a trancar o celular até pra ir ao banheiro. E o grupo do WhatsApp da firma ficou silencioso por dois dias inteiros.
Adalberto, esse, manteve-se onde sempre esteve: na sombra do canto da sala, entre a impressora sem papel e a planta artificial. Invisível. Mas atento. Esperando a próxima abertura de tela.