domingo, 15 de junho de 2025

O Invisível e o Amor Rubro-Negro

 Adalberto estava no churrasco de família como quem cumpre expediente. Sentado num canto da varanda, equilibrava o copo de refrigerante morno no joelho e observava os rituais masculinos em volta da churrasqueira: piadas recicladas, tapas nas costas, discussões sobre pênaltis de 2009.

Yuri — o primo — liderava a roda como sempre. Camiseta justa, boné virado pra trás, riso alto e musculatura ostensiva. Havia algo nele que exalava segurança de quem nunca passou uma tarde inteira em silêncio num refeitório.

O celular de Yuri estava largado sobre a mesa de plástico, carregando sob o sol. Uma notificação piscava: "Trem do Mengão🔥⚽".

Adalberto esticou a perna. Não era por vingança. Era por esporte.

Deslizou o dedo, abriu o WhatsApp. Vinte e três marmanjos: amigos, ex-colegas, vizinhos — todos rubro-negros, todos com avatares de jogadores berrando ou taças erguidas.

Digitou com calma, como quem escreve bilhete de despedida:

“Eu te amo. E não é de agora. Tô cansado de esconder. A verdade é que eu amo vocês. Cada um desse grupo. Tô falando sério.”

Coração vermelho. Bandeira do Flamengo. Uma lágrima emoji.

Mandou.

Fechou o app, colocou o celular exatamente como estava, e voltou a observar.

Do outro lado da varanda, Yuri mordeu uma coxa de frango, riu de uma piada sobre o VAR, e então viu a tela acender.

— Que porra é essa? — disse alto, parando de mastigar.

Silêncio no grupo da churrasqueira. Silêncio na varanda. Silêncio até na casa da vizinha.

O grupo "Trem do Mengão" respondeu em segundos:

— “Kkkkkkkkkk que isso, irmão?”
— “Tá falando sério ou é pegadinha?”
— “É do jogo ou do coração?”
— “Fica tranquilo, Yuri. Eu também te amo. 😂”
— “Agora tudo faz sentido... aquele dia do churrasco em 2021... 👀”
— “Já pode trocar o nome do grupo pra ‘Amor entre Rubros’”
— “Te entendo, mano. Esse time emociona mesmo.”
— “Aí eu choro 😢🔥”

Yuri ficou vermelho. Primeiro de confusão, depois de raiva.
— Alguém pegou meu celular, véi. Quem foi o filho da...?

Olhou em volta. Ninguém reagiu. Alguns riam abafado. Outros evitavam o olhar. Yuri encarou Adalberto por um segundo — aquele primo calado, o que trabalha com "coisa de computador", o que nunca é marcado em foto nenhuma.

Adalberto apenas sorriu, muito levemente. E deu outro gole no refrigerante.

Yuri saiu bufando, celular em punho, dizendo que ia sair do grupo e criar outro “com gente normal”.

No fim da tarde, Adalberto ajudou a guardar as cadeiras. Saiu cedo, como sempre. Sem levantar suspeitas. Sem dizer nada. Mas, naquela noite, dormiu com o telefone no peito, ainda rindo do novo nome do grupo:

"Mengão e Emoção ❤️🖤"

E uma nova mensagem fixada:

“Sentimento é pra quem tem raça.”

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