domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e o Tempo Suspenso

 Era uma manhã de quarta, dessas que parecem não querer acontecer. O céu estava da cor de papel amarelado e o vento passava como funcionário cansado — sem vontade e sem pressa.

Adalberto, no entanto, estava empolgado.
Depois de noites insones misturando fórmulas, cálculos, bulas vencidas e instruções de brinquedo científico da infância, ele descobriu.

Não a cura do câncer.
Não a viagem interestelar.
Mas algo muito mais útil para alguém como ele:

Um composto que parava o tempo.

Não era coisa de cinema — o tempo parava para todos, exceto para Adalberto. O mundo congelava: pássaros no ar, pisca-piscas parados no vermelho, pessoas com a boca entreaberta no meio da palavra.

E, claro, ele usou o poder com a mesma responsabilidade com que uma criança usa tinta guache numa parede branca.

No primeiro uso, não foi atrás de bancos, cofres, nem do Vaticano.
Ele foi ao supermercado Império dos Alimentos, o mais caro da cidade. Um lugar onde um pedaço de queijo brie custava o salário mínimo em parcelas suaves.

Entrou como quem apenas queria um café e bolacha.
Disfarçou-se com boné, máscara e o olhar vago dos que comparam preço de azeitona.

E então, discretamente, ativou o composto.

O mundo parou.
O som desapareceu. Os ventiladores congelaram no ar. A moça do caixa ficou paralisada com a mão suspensa, segurando um troco.

Adalberto sorriu como quem viu a eternidade e ela estava em promoção.

Começou a encher o carrinho com precisão cirúrgica:
– Queijos importados.
– Vinhos com nomes que ele não sabia pronunciar.
– Salmão norueguês.
– Perfumes franceses.
– Um conjunto de panelas que vinha com uma assinatura da chef do MasterChef.

Ao sair do mercado, empurrou o carrinho até seu carro — um Uno reformado com mais adesivos do que lata.
Guardou tudo.
Voltou.
Recolocou o carrinho no lugar, agora vazio.

E, do lado da sessão de cereais, ativou o retorno do tempo.

— PLIM.

A vida seguiu.
Mas não no supermercado.

Em cinco minutos, a confusão começou.

— Ué, cadê o brie da promoção?
— O senhor da adega disse que viu as prateleiras vazias do nada.
— Sumiu um jogo de panelas!
— Alguém levou 6 perfumes de uma vez?
— Olha aqui nas câmeras...

As gravações mostravam o seguinte:
— produtos sumindo sozinhos.
— o carrinho andando sem ninguém.
— um vinho flutuando e desaparecendo.

Teorias começaram a pipocar:
Fantasma de um antigo açougueiro.
Milagre.
Teste da Globo.
Presença demoníaca ligada à importação de queijos suíços.

O gerente chamou a polícia, que chamou um padre, que chamou um primo que entendia de câmeras.

Adalberto, em casa, cortava o queijo com uma faca nova que nem sabia que vinha com a tábua. Serviu-se uma taça e ligou a TV: estava passando a reportagem ao vivo.

“Mistério no Império dos Alimentos. Produtos somem do nada e câmeras registram o impossível...”

Ele sorriu.
E anotou mentalmente:
“Próxima parada: relojoaria do shopping.”

Porque para Adalberto, o tempo era relativo.
E a moral...
Bem, essa ele já havia deixado congelada faz tempo

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