domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e o Reverso do Tempo

 Após semanas testando a fórmula, Adalberto estava mais ousado. Já tinha feito compras grátis, evitado filas de banco, espionado reuniões e até assistido filmes inteiros no cinema sem pagar — saía antes do tempo voltar e ninguém via.

Mas ele começou a perceber pequenos efeitos colaterais.

No início, eram apenas incômodos:
– um zumbido no ouvido,
– formigamento nas mãos,
– uma leve tontura quando reativava o tempo.

Mas logo vieram os sinais mais graves.

Certa manhã, ao congelar o mundo novamente para pegar uma garrafa de uísque importado (edição de colecionador), notou que uma mosca ainda voava.

Ela o encarava.
Sim, encarava.

Não era possível — tudo deveria estar parado.

Assustado, saiu correndo do mercado (com o uísque, claro).
Mas algo estava diferente.

No caminho de volta, passou por um espelho de loja e viu algo impossível:

Seu reflexo estava atrasado.

Ao piscar, o reflexo demorava. Ao sorrir, o reflexo ficava sério.
Era como se ele tivesse deixado partes de si presas no tempo parado.

E o mundo começou a reagir.

Pessoas olhavam para ele com estranheza, mesmo sem saber por quê. Cachorros latiam ao vê-lo. Crianças choravam. O espelho do banheiro não refletia seus olhos de forma exata.

E então, na madrugada de uma segunda-feira, veio o pior:

Ele acordou antes de o tempo acontecer.

O relógio marcava 03h45, mas tudo estava parado. Não por sua fórmula — ele não a havia usado. Era como se agora ele vivesse antes do tempo.

Andava por ruas onde os jornais ainda não tinham chegado, onde os pássaros estavam no ar, mas imóveis, onde nada existia ainda.

Quando o tempo voltava, ele reaparecia em momentos que não lembrava de viver. Pessoas lhe contavam conversas que ele não teve. Apontavam mensagens que ele jamais escreveu.

Adalberto estava se desfazendo no tempo.

Cada vez que usava a fórmula, um pedaço dele ficava no mundo congelado, preso num eco invisível, que talvez risse, talvez chorasse — e talvez estivesse ganhando consciência própria.

Ele tentou parar.
Enterrou o frasco.
Jogou os papéis no fogo.

Mas era tarde.
O tempo já o conhecia.
E agora o tempo queria algo em troca.

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