domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e a Noite da Escola Trancada

 Sexta-feira, final de tarde.

A algazarra do 9º ano já ecoava pelos corredores como um trovão: papel voando, gritaria, gente subindo no corrimão, outro tentando acender isqueiro escondido com bala de hortelã.

Adalberto, invisível e de braços cruzados, observava com aquele olhar maroto de quem planeja.
E então, clac, virou a chave. Literalmente. Trancou o portão principal, as portas internas, as saídas de emergência, e guardou o molho de chaves dentro de um estojo de canetinha no fundo do armário de ciências.

A escola seguiu na balbúrdia até que, por volta das 18h, um aluno tentou sair:

— Ué... trancaram o portão?

— ISSO NÃO É HORA DE BRINCADEIRA, ABRE A PORTA! — gritou Bia.

Mas a porta não se mexia. Nem com empurrão, nem com chaves reservas (que também tinham sumido), nem com os berros de "É o Miguel que sempre faz isso!". A noite caiu.

Lá pelas 19h30, começaram os celulares a tocar. Primeiro, os toques ignorados. Depois, as mensagens começaram:

Pai do Rafa: “Alguém viu o Rafa? Já era pra estar em casa.”

Mãe do Miguel: “Aqui nada. Miguel falou que ia direto. Você não cuida do seu, quer que eu cuide também?”

Pai do Tiago: “Não é meu filho que espalha cola nas cadeiras. Culpa é do seu mimado aí!”

Mãe da Bia: “Não vem culpar minha filha, que educada ela é! Quem vive reclamando dos professores é o tal do Miguel.”

E então, a avalanche começou.

Meia hora depois, os pais estavam aglomerados no portão da escola, gritando entre si. Uma mãe chegou com escada, um pai com alicate de pressão. Outro pai queria chamar a imprensa.

— SEU FILHO É UM VADIO DESOBEDIENTE, DÁ MAU EXEMPLO!

— AH, VAI TOMAR CONTA DA SUA VIDA! AQUI É TODO MUNDO PRESO POR CULPA DOS SEUS ANJINHOS!

Enquanto isso, dentro da escola, os alunos em completo desespero.

— Gente, isso aqui vai sair no G1 — sussurrou Tiago.
— Alguém aqui tem comida? — perguntou Bia, tremendo.
— Achei um pão de queijo debaixo do bebedouro. Meio mole. — disse Miguel.
— Aceita, é melhor que nada. — responderam em coro.

Adalberto, naturalmente, se divertia. Invisível, passava entre pais em pé de guerra e alunos meio chorando, meio rindo, meio culpando uns aos outros.

A cereja do bolo foi quando um pai começou a escalar o muro com a escada da faxina emprestada do zelador. Chegou no topo e caiu direto numa moita. A ambulância foi chamada.

Já era quase meia-noite quando o vigia, que finalmente acordou do cochilo na guarita, disse:

— Ué, que confusão é essa? Tem gente trancada?

E abriu uma porta lateral, esquecida há anos, que estava… destrancada.

Os alunos saíram cabisbaixos, abraçados às mochilas, suando de nervoso. Os pais gritavam, abraçavam, empurravam, acusavam e juravam processar a escola, os colegas, o sistema, a prefeitura e até um cachorro que latiu na rua.

Na manhã seguinte, uma professora encontrou o molho de chaves dentro de um estojo cheio de canetinhas secas.
Ninguém sabia como foi parar lá.

Na última carteira da sala de ciências, um bilhete dobrado, escrito à mão com letra impecável, dizia:

“Toda revolta começa com desordem. Toda desordem começa com filhos criados com wi-fi.

De nada.
— A.”

Adalberto, claro, tomava um café na padaria da esquina e ria enquanto lia a notícia:
“Pais em confusão generalizada após sumiço de alunos em escola trancada misteriosamente.”

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