Adalberto tinha dez anos e já conhecia o sabor ácido da invisibilidade. Não a invisibilidade mágica dos contos, mas a outra — aquela que se instala quando ninguém espera nada de você, nem mesmo que responda à chamada.
Era o tipo de criança que, mesmo de frente para o professor, era chamada de “o de trás”. Seu caderno era limpo, não por zelo, mas por falta de anotações. Tinha os olhos sempre meio vazios, como se parte dele tivesse ficado em casa ou não tivesse vindo com o corpo.
Naquela manhã, a sala do 5º ano estava entregue à distração. A professora escrevia datas no quadro, o ventilador girava com a força exata de um suspiro, e havia um chiclete no bolso de Adalberto — daqueles cor-de-rosa que perdem o gosto em vinte segundos.
Na carteira da frente, sentava-se Fabiane. Cabelos longos, castanhos e armados, sempre com presilhas coloridas e um laço exagerado. Era a menina que falava alto, ria alto e andava como se a escola fosse passarela. Para Adalberto, ela era uma peça muito viva num mundo muito esmaecido.
Talvez por isso, ou por outra razão que nunca admitiria nem para si mesmo, ele fez o que fez.
Mastigou o chiclete. Macio, quente.
E, num impulso quase teatral — como se estivesse de fora, observando-se —, colou o chiclete bem no centro do cabelo de Fabiane. Apertou com firmeza. Sentiu a textura se perder entre os fios.
Logo depois, como se sua própria alma usasse máscara, apontou com o dedo curto e decidido:
— Professor! O Caio que fez!
Caio. O menino mais calado da sala. Que sentava ao lado da lixeira. Que gaguejava ao ler em voz alta. Que guardava os lápis por ordem de cor.
A professora olhou. Fabiane gritou. O caos desceu como cortina.
— Tem um negócio no meu cabelo!!! — gritou ela, puxando os fios, os olhos em pânico.
Chiclete no cabelo é sentença. Não há apelação. Apenas corte.
A mãe foi chamada. Tesoura em mãos. Saíram com Fabiane chorando, segurando uma mecha no bolso do casaco e um silêncio vingativo no olhar.
Caio, perplexo, foi levado ao diretor.
Tentou se explicar.
— Eu... eu não...
Mas a palavra "não" não corta o chiclete. Nem convence quando vem de um menino que já ninguém ouve.
Adalberto ficou sentado. Em silêncio. Ninguém o interpelou. Ninguém o notou.
E ali, entre a carteira e o vazio, teve um pensamento que não sabia nomear: uma culpa sem forma, uma espécie de peso que não doía, mas que se alojava — como um segundo corpo dentro do seu.
Talvez, se fosse Fernando Pessoa, teria dito:
“Fiz o que não fiz,
e o outro sofreu o que não era dele.
A justiça não é cega —
só olha para o lado errado.”
Mas Adalberto não disse nada. Nunca dizia.
Só mastigava o silêncio, como quem espera que o gosto volte.
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