Era uma terça-feira nublada, daquelas que já começam estranhas: pássaros voando baixo, internet caindo em todas as salas, e a coordenadora reclamando que o micro-ondas da sala dos professores “pisca quando alguém espirra”.
Adalberto estava com saudades do caos. E mais ainda, daqueles pestinhas do 9º ano — os campeões em bagunça, cuspe no bebedouro, apelidos cruéis e "tá pegando fogo" nos grupos de WhatsApp da escola.
Decidiu então que era dia de aprendizado. Mas não o tipo que se ensina com giz e lousa.
Com um estalar de dedos invisível, o tempo parou.
Alunos, professores, carros, vento, tudo ficou imóvel. Menos ele.
Pela cidade silenciosa, Adalberto passou de casa em casa, pegando um por um: Rafa com o celular na mão, Bia colocando chiclete na maçaneta do quarto, Miguel comendo salgadinho no café da manhã. Cada um foi levado, no maior estilo “mágica de feira”, para a escola já vazia — o velho prédio de concreto cinza, agora silencioso e assustador.
Na sala do 9º ano, um a um foi colocado sentado na carteira, todos paralisados em posições diversas, até que... o tempo voltou.
— Ué??? — exclamou Tiago, olhando em volta. — Como vim parar aqui?
— Eu tava em casa! — gritou Bia. — Tinha aula hoje?
— Isso é trote? — disse Miguel, olhando pela janela escura. — Cadê todo mundo?
Foi então que ouviram um som: grrrrhhhh.
— Vocês ouviram isso? — perguntou Rafa.
Na escada do prédio principal, uma sombra enorme apareceu. Não era o inspetor nem o diretor. Era... um URSO.
De verdade. Gigante. Peludo. E babando.
— CORRE! — gritaram em uníssono, disparando pelos corredores.
Mas não havia saída. No pátio, duas girafas pastavam tranquilamente nos canteiros. No laboratório, um chimpanzé comia as pastilhas de álcool em gel. No banheiro feminino, um flamingo discutia com o reflexo no espelho.
— ISSO É UM SONHO! — chorava Tiago.
— OU UM FILME DA SESSÃO DA TARDE!!! — gritava Bia, tentando subir numa estante.
— AAAAAH O MACACO PEGOU MINHA MOCHILA! — Miguel urrava em desespero.
Adalberto, invisível, assistia de camarote. Entrava nas salas, girava cadeiras, abria armários com esqueletos falsos, soltava barulhos de tigre no sistema de som da escola e deixava marcas de patas falsas pelo chão.
O pânico era absoluto.
Até que, do nada... tudo congelou de novo. Animais, crianças, folhas ao vento, todos imóveis.
Adalberto recolheu seus “convidados especiais” — girafa por girafa, urso por urso, chimpanzé e flamingo — e os devolveu sorrateiramente ao zoológico. Ainda teve o cuidado de deixar um peixe-palhaço no aquário da diretora, por pura ironia.
Quando o tempo voltou, os alunos estavam... de volta às suas casas. No sofá, no banheiro, no quarto. Desnorteados.
Na manhã seguinte, a escola recebeu dezenas de mensagens de pais:
“Meu filho acordou no chuveiro gritando ‘o urso vai me pegar!’”
“Bia não quer mais ver flamingos nem no papel de parede.”
“Miguel está jurando que foi perseguido por uma girafa no pátio.”
E no mural da escola, alguém colou — sem ninguém ver — uma cartolina com letras coloridas, onde se lia:
“Educar não é domar. É deixar que o medo ensine por um tempo.”
— A.”
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