domingo, 15 de junho de 2025

O invisível e o amigo oculto

 Era dezembro. O calor grudava nas costas e o ventilador da repartição girava como quem hesitava entre viver e pedir aposentadoria.

No Setor de Ajustes e Inconsistências Contábeis, a decoração natalina parecia feita por alguém que odeia dezembro: três bolas murchas, uma rena sem olho e uma fita vermelha que mais lembrava esparadrapo.

Mas havia o amigo oculto.
E isso bastava para gerar tensão.

Adalberto, claro, participava — embora ninguém lembrasse de tê-lo tirado, nem de ter tirado ele. Invisível, como sempre. Mas o nome estava na lista, letra torta, entre o do chefe e da moça do protocolo.

No dia da revelação dos presentes, reuniram todos na sala de reuniões. Panetone genérico, refrigerante quente e microfone com eco. O chefe abriu os trabalhos com um discurso que era uma ameaça passiva:
— O importante é a intenção, não o valor. — disse, encarando o financeiro.

Quando chegou a vez de Ricardo, o almofadinha do setor de contratos, ele foi até a frente e anunciou, sem saber que já era parte de um teatro montado:
— Meu amigo oculto é alguém... muito especial. Discreto. Gente boa... às vezes meio esquisito, mas... enfim.

Entregou o presente: uma caixa de papel craft, com fita azul e um cartão que dizia apenas:
“Seja mais cheiroso em 2025.”

Dentro, um desodorante roll-on e um perfume da marca “Fierce Instinct” — embalagem duvidosa, promessa exagerada.

A sala explodiu em risadinhas abafadas.
Adalberto, do canto, cruzou as pernas com calma.

Foi então que, discretamente, o presente seguinte apareceu no colo de Ricardo, sem ninguém saber quem o havia deixado ali. Um envelope. Sem nome.

Ricardo abriu.
Dentro, uma foto impressa: ele, sem camisa, num grupo de musculação de Facebook, com a legenda:
“Se você for meu amigo oculto, me dá suplemento de verdade.”

A sala parou.
Alguns engasgaram com a uva passa.
Outros disfarçaram o riso.

— Isso... isso não é meu! — disse Ricardo, o rosto já beterraba.
— Que coisa feia... — murmurou Dona Zuleica, com uma expressão de missa interrompida.

Ricardo jurava que nunca tinha mandado aquilo.
Mas a imagem estava impressa, plastificada e com o carimbo da impressora da sala ao lado.

A suspeita virou riso.
O riso virou desconforto.
O chefe pediu que “todos voltassem aos seus lugares” e que “o espírito natalino não fosse perdido por bobagens”.

Ninguém descobriu quem colocou o envelope no colo de Ricardo.
Mas Adalberto, do seu canto, tirou um bombom da caixinha e murmurou, quase para si mesmo:

“Amigo oculto é só mais uma forma social de dizer o que ninguém tem coragem.”

E passou o dedo na borda do copo de plástico como quem assina o mundo em silêncio.

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