domingo, 15 de junho de 2025

O Invisível e a Proposta no Grupo Corporativo

 Era uma segunda-feira pós-feriado na Translog Express. A impressora havia voltado a engasgar, a cafeteira parecia cuspir óleo diesel, e os ânimos no setor de atendimento estavam suspensos por um fio de paciência.

Adalberto, como sempre, era o móvel humano da sala: ninguém tropeçava nele porque ninguém percebia sua presença. No crachá, o nome desbotado era só um lembrete de que ele ainda estava oficialmente ali.

Um mês havia se passado desde o escândalo Douglas-Breno, que ainda ecoava em cochichos no refeitório. Mas como toda tragédia de firma, acabara substituída por planilhas atrasadas e bolos secos no aniversário de setor.

Naquela manhã, quem chamava atenção era Flavinho do almoxarifado. Jovem, metido a galanteador, com gel demais no cabelo e botão de menos na camisa. Dizia-se “bom de lábia” e “fera no toque da conquista”.

O celular de Flavinho estava destravado e abandonado em cima de uma pilha de formulários. E era aí que Adalberto, eterno maestro do caos invisível, encontrava sua batuta.

Aberto no WhatsApp. O grupo: "Equipe Translog – Oficial 🚛"
44 membros. Supervisores, RH, até a dona da empresa, Dona Márcia — casada, respeitadíssima, do tipo que fala “querido” e demite com um aceno.

Adalberto respirou fundo. Digitou com precisão cirúrgica:

“Dona Márcia, eu não aguento mais esconder…
Seus olhos me perseguem no estoque, seus passos ecoam no meu coração.
Sei que é casada, mas a paixão não respeita aliança.
Vamos conversar, só nós dois. Um vinho, talvez.
Flávio.”

Mandou.
No grupo da firma.
Com emoji de coração, taça de vinho, e uma rosa.

Silêncio. Por três segundos.

Depois:
— “????????”
— “É sério isso?”
— “Tem criança lendo aqui”
— “É hackeado ou surto?”
— “Rapaz…”

Dona Márcia digitando...
Digitando...
Digitando...
Parou.
Digitando de novo.
A tensão dava pra cortar com colher de plástico.

A mensagem veio:

“Flávio, sugiro que se dirija imediatamente ao RH. E, por gentileza, use camisas com botões fechados.”

Seguiu-se uma enxurrada de reações: carinhas chorando de rir, gifs de explosões, alguém mandou um áudio imitando violino triste.

Flavinho, que voltava do banheiro mascando chiclete com a confiança de um pavão, parou ao ver os olhares. Pegou o celular. Leu.
Empalideceu.
— EU NÃO MANDEI ISSO!

— Foi você mesmo, irmão. Tá no grupo oficial, tá assinado, tem até flor!

Flavinho foi chamado ao RH sob o olhar congelado de Márcia. Saiu meia hora depois com olhos vidrados, camisa fechada até o pescoço e sem gel no cabelo.

Na sala, Adalberto retornou à sua mesa. Abriu a planilha “itens vencidos 2023”.
Sorriu.
Como diria seu autor favorito, Millôr Fernandes:

“A vida é uma peça de humor. O problema é que quase ninguém acha graça enquanto está no palco.”

Mas Adalberto achava. Achava muita.

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