Na sexta-feira da apresentação mensal, todos estavam tensos. O ar-condicionado soprava aquele frio de consultório de dentista e as cadeiras de rodinha rangiam enquanto os chefes deslizavam de um lado pro outro, fingindo que estavam focados.
Entre todos ali, ninguém superava em antipatia o gerente Hermínio — um homem que falava como se estivesse sempre decepcionado com o mundo e com o gosto musical dos colegas.
Hermínio era daqueles que criticavam quem esquentava peixe no micro-ondas e usava a expressão “isso não é postura corporativa” com frequência assustadora. Mas ninguém podia fazer nada: era competente, intocável, e... insuportável.
Até que Adalberto, sempre ele, descobriu um antigo manuscrito tibetano sobre a “possessão consciente” — uma técnica proibida, esquecida, e ligeiramente mal traduzida. Em três noites de estudo e um chá de boldo místico, Adalberto aprendeu a dominar momentaneamente o corpo de outro ser humano.
Quem seria sua cobaia? Óbvio: Hermínio.
E assim, no auge da reunião, quando Hermínio começou a falar:
— Estamos num momento sensível do trimestre. Precisamos rever os indicadores de...
PAF.
Adalberto ativa a técnica em silêncio, olhos semicerrados, escondido atrás de uma pilha de pastas do financeiro.
Hermínio congela. Seus olhos piscam fora de ritmo. De repente...
— “Dum tchic tchic dum tchic tchic” — começa a murmurar em ritmo tribal, enquanto se levanta e faz um gesto com os braços como se estivesse puxando cordas invisíveis do teto.
A equipe paralisa.
Hermínio, ainda sob o controle de Adalberto, faz um giro de corpo, levanta uma perna como um flamingo e solta um berro confiante:
— “Alface é só um repolho covarde!”
Silêncio absoluto.
Cláudia, a fofoqueira oficial, já está com o celular gravando em posição vertical. Guto segura o riso. Neide derruba a tampa do copo térmico.
Hermínio então se ajoelha, coloca as mãos em concha na frente do rosto e encena um balé contemporâneo com direito a sussurros poéticos:
— “Eu sou a folha que caiu da ata de reunião... danço nu na planilha da vida!”
Aí, de repente, ele tira os sapatos, sobe na mesa da sala de reuniões e começa a marchar em círculos gritando:
— “Eu declaro este escritório como território do povo do rebolado sagrado!”
Foi nesse momento que Adalberto, satisfeito, soltou o controle.
Hermínio parou. Olhou ao redor. Viu-se em cima da mesa, descalço, com a gravata amarrada na testa. E então, com toda a autoridade possível, disse:
— ...Continuando a apresentação...
Indicador número dois: produtividade.
Mas ninguém ouviu. Porque todos já estavam no grupo da empresa, vendo e comentando o vídeo com o título:
"Hermínio doido: o surgimento do Pajé Corporativo"
E Adalberto?
Sentado no canto, com sua maçã de sempre, pensava em voz baixa:
— Nada como um bom balé administrativo pra lembrar que até gerente tem perna.
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