Na quarta série da Escola Municipal Prof.ª Efigênia Vasconcelos, Adalberto já era um vulto em miniatura. Não sujava a lousa, não levava bilhete na agenda e nunca esquecia a régua — mas ninguém lembrava dele nas rodas de perguntas nem nas fotos da gincana. Na chamada, o silêncio entre o “Bruno” e a “Camila” era o único sinal de que ele existia.
Por isso, Adalberto ouvia. Observava. E tramava.
Tudo começou numa sexta-feira de avaliação de Ciências. Dona Carmem explicava, com sua voz de desânimo histórico, as diferenças entre répteis e anfíbios. Enquanto isso, Adalberto testava a elasticidade de um estilingue feito com a liga de borracha de um estojo da Turma da Mônica. Não tinha alvos definidos — apenas convicção.
A primeira vítima foi Jeferson, o popular. O elástico acertou a nuca dele justo quando escrevia “pele úmida” na resposta sobre o sapo-cururu. Jeferson virou-se num salto, olhos faiscando, e apontou para Tainá, que estava com um lápis de ponta afiada e cara de inocente ofensiva.
— Foi ela!
A confusão começou ali, com Tainá em lágrimas, Jeferson jurando por todos os santos e Dona Carmem gritando um “Ninguém vai sair pra recreio!” tão definitivo que as janelas pareceram embaçar.
Mas Adalberto queria mais.
No dia seguinte, aproveitando o intervalo, plantou um chiclete mascado (dos outros, é claro — ele era metódico demais pra mascar qualquer coisa) no encosto da cadeira de Felipe, o menino que tinha alergia a injustiças e usava fichário cor-de-limão. Felipe sentou, grudou, levantou aos gritos:
— Isso é coisa da Isadora! Ela sempre tem chiclete!
Isadora, que de fato mascava como uma secretária dos anos 90, foi pega de calça curta. Quando tentou explicar, Felipe já listava crimes antigos dela, como uma promotoria descontrolada: "Ela colou na prova de matemática! Ela quebrou o apontador do prof. Danilo! Ela riscou o cartaz da dengue!"
Mais uma leva pra diretoria.
Adalberto, sentado no seu canto, abria discretamente um pacote de bolacha cream cracker — que ninguém pedia, pois todos achavam que ele levava por falta de opção.
A glória veio com a “atividade da cabeça”. A professora trouxe máscaras de papel machê para os alunos pintarem. O plano de Adalberto foi simples e cruel: trocou, na hora do recreio, os nomes colados embaixo das máscaras. A de Jeferson (pintada com escamas verdes e dentes afiados) foi parar com Camila. A de Camila (rosa com glitter e uma frase motivacional) foi parar com Bruno, que se recusava a usar rosa desde a Educação Infantil.
Na hora da entrega, o caos foi absoluto. Choro, ranger de dentes, gritos de “roubaram a minha identidade!”. Teve até um começo de vômito emocional.
Resultado: cinco alunos na diretoria. A professora, com enxaqueca. O diretor, com uma pasta nova de advertências.
E Adalberto?
Fez um desenho silencioso: um sapo sorrindo, com óculos escuros, embaixo de um sol que brilhava só pra ele.
No final da aula, pegou sua lancheira de couro sintético e foi embora devagar, com a calma dos inocentes. Ou dos invisíveis. Que, às vezes, são os mais perigosos.
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