Desde a infância, Adalberto suspeitava que era invisível. Não como nos livros de capa mole que lia embaixo do beliche, mas invisível à maneira dos que passam pela sala e ninguém percebe. Gente que entra num elevador e ninguém se incomoda em apertar o botão por ela. Com o tempo, Adalberto refinou essa habilidade: aprendeu a caminhar entre as mesas da repartição sem provocar uma só interrupção no teclar dos teclados.
Na repartição — Setor de Ajustes e Inconsistências Contábeis do município — era invisível até para o chefe, que certa vez o passou direto para pedir café a um estagiário. Mas Adalberto não se ofendia. O invisível, dizia para si mesmo, tem o privilégio de andar pelo mundo como um gato de biblioteca: sem ser notado, mas sempre presente.
Foi numa terça-feira abafada que decidiu colocar sua invisibilidade à prova. Havia um colega novo, Wellington, desses que trazem marmita vegana e usam palavras como “sinergia”. Tinha voz de rádio comunitária e mania de organizar os papéis dos outros, o que para Adalberto era um crime equivalente a danificar um vitral de igreja barroca.
Primeiro, Adalberto trocou o atalho do teclado do Wellington. A tecla que antes salvava, agora abria um GIF animado de um gato pelado dançando ao som de um tambor distante. Ninguém percebeu — até a sexta vez em que o som escapou durante a videoconferência com a secretária adjunta.
Depois veio a segunda fase: Adalberto, em seu manto de invisibilidade metafísica (e um crachá virado ao contrário), entrou sorrateiro na máquina do rapaz e trocou o papel de parede. No lugar da foto do seu golden retriever chamado Dharma, apareceu um banner de letras garrafais:
“TODOS AQUI SÃO INÚTEIS, MENOS EU.”
Fonte Comic Sans. Fundo neon. Um clássico do desprezo.
Na manhã seguinte, o setor era só cochicho. Dona Zuleica, que falava com as plantas, olhava Wellington como se ele tivesse cuspido no vaso da samambaia. E foi quando Adalberto, ainda invisível, preparou a cereja do bolo: alterou a assinatura automática do e-mail do rapaz para incluir a frase:
“Favor não me incomodar com problemas de gente medíocre.”
O e-mail foi enviado à chefia. À ouvidoria. À vice-prefeitura. E, por engano, à mãe de Wellington, que mantinha o e-mail do filho salvo desde os tempos de feira de ciências.
A reunião extraordinária aconteceu numa sexta. Os chefes chamaram Wellington para uma “conversa”. Ele entrou com seu potinho de lentilha, saiu com o aviso de suspensão. Ninguém o viu mais.
Adalberto, por sua vez, permaneceu. Invisível, como sempre. E agora com uma sala só sua. Fez questão de trocar o papel de parede do computador novo por um pôr-do-sol em tons tristes. Apenas para lembrar que, por vezes, a sombra não vem das nuvens — mas das figuras que não vemos.
E foi assim que o invisível ganhou um nome no crachá. Ainda que ninguém o olhasse nos olhos.
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