domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e o Palhaço da Verdade Congelada

 O dia já se arrastava pelas calçadas quando doutor Otacílio cruzou a porta da empresa. Terno suado, pasta surrada, ego polido.

Foi nesse momento que Adalberto acionou o frasco, agora em versão roll-on, com discreto aroma de eucalipto mentolado.
E o tempo, obediente como bom relógio quebrado, parou.

Carros imóveis.
Folhas suspensas no ar.
Otacílio, com um pé ainda no ar, congelado na saída como se hesitasse entre ser advogado ou personagem de boato.

Adalberto, sereno, entrou em seu Fiat Prêmio 1989, virou a chave, e dirigiu pelas ruas vazias até um ponto específico: o posto de gasolina desativado onde se reuniam figuras errantes da cidade.

Lá, entre placas tortas e pichações com erros de ortografia, estava Zé Mauro, em seu traje de palhaço Bozo — rosto pintado, peruca torta e uma Fanta quente na mão.

— Vem comigo — disse Adalberto, mesmo sabendo que Zé Mauro já estava parado, imóvel, como todo o mundo fora ele.

Porque era assim: só Adalberto se movia no tempo parado.
O resto virava boneco de cera.

Então, com um pouco de esforço, ele pegou Zé Mauro no colo, o arrumou no banco do passageiro como quem posiciona uma estátua, voltou para a empresa, abriu a porta com o crachá de Cláudia (que deixara pendurado num gancho) e posicionou Bozo bem ao lado do advogado congelado, que ainda saía da porta.

Era uma cena linda, na verdade.
O advogado sério e o palhaço sorrindo.
Pareciam capa de romance alternativo.

Adalberto pegou o celular de Otacílio, usando luvas de vinil, e clicou em selfie.
Tirou umas três, testou ângulos.
Na escolhida, o Bozo fazia “joinha” e Otacílio parecia sorrir sutilmente (por puro acaso do congelamento muscular).

A legenda?

"Cliente amando outro homem, mas me pediu sigilo.
Tô aqui protegendo os direitos das pessoas amarem em segredo.
Esse é meu amigo Bozo."


Postou no stories, printou e mandou número privado de Cláudia direto do WhatsApp do advogado.
Legenda no print:
"Ops, saiu no perfil errado kkkk"

Desfeita a obra-prima, Adalberto voltou ao carro com Bozo estático, deixou-o no mesmo lugar do posto, arrumadinho, com a Fanta ainda na mão, e voltou para seu canto.
Apertou novamente o frasco.

O tempo voltou.
Pássaros voaram.
Porta automática abriu.
Doutor Otacílio desceu os degraus sem saber que agora tinha uma nova identidade digital e um novo melhor amigo palhaço.

Cláudia foi a primeira a ver a notificação.

— MEU DEUS, ELE POSTOU ISSO AQUI?! — gritou, já repassando o print para três grupos diferentes.

Nos corredores, começaram os burburinhos.
Guto soltou um “🤡”,
Ednilson se benzeu sem entender por quê.
Dona Neide mandou um áudio dizendo:
— Isso é assunto pro jurídico...

Otacílio, ao checar o próprio celular, gritou como quem descobre que virou meme:

— MAS QUE… MAS QUE PALHAÇADA É ESSA?!
E dessa vez, não era metáfora.

No fundo da sala, Adalberto ajustava a gravata com ar tranquilo.

Afinal, só há uma coisa mais poderosa que o tempo:

A fofoca bem planejada.

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