Após o bilhete de amor impresso misteriosamente do seu terminal, Ednilson entrou em colapso moderado.
Não o tipo que se joga no chão e grita —
Mas o tipo que passa a madrugada lendo fóruns sobre segurança digital, colando post-its no monitor com senhas de 30 caracteres, e ligando para a mãe dizendo:
— Mãe, se algo acontecer comigo, o problema tá na impressora da empresa.
No dia seguinte, ele chegou na Soluções Integradas Alfa com terno mal passado e um homem baixo e robusto a tiracolo.
— Esse aqui é o doutor Otacílio. Especialista em crimes digitais e danos morais.
— Sou perito autodidata, técnico em redes e formado em Direito por correspondência. — completou Otacílio, estendendo a mão com uma pasta tão gasta que parecia datar da época das LAN houses.
Adalberto, ao ver a dupla entrar, quase engasgou com sua barrinha de cereal light.
Mas manteve o semblante impassível.
Como se dissesse:
"Ora, ora, temos um cavaleiro da justiça entre nós..."
A cena que se seguiu foi digna de auditório de TV vespertina:
Otacílio exigindo acesso ao sistema da impressora,
pedindo logs de IP,
perguntando quem mais usava o computador,
falando em “rastros digitais” e “vírus que imprimem sozinhos”.
Cláudia filmou parte da conversa escondida.
Dona Neide mantinha a paciência de quem medita com incenso.
— Mas, doutor… o senhor quer dizer que alguém invadiu o sistema pra imprimir um bilhete de amor?
— Exatamente, minha senhora. E não se surpreenda se o próximo passo for usar o sistema para fazer compras ou mandar mensagens comprometedoras.
Adalberto, fingindo atender um cliente por e-mail, riu baixinho.
E então veio o ponto alto:
Otacílio entregou uma notificação extrajudicial para ser anexada à ata da empresa, exigindo que:
-
O nome de Ednilson fosse oficialmente isentado da autoria do bilhete.
-
Que todos os envolvidos no setor tivessem senhas trocadas.
-
Que a empresa providenciasse antivírus premium para todos os terminais.
-
E que fosse feito um comunicado interno restaurando a honra do funcionário injustamente acusado.
Guto murmurou:
— Ele acha que a gente é a NASA.
Dona Neide respirou fundo e respondeu:
— Tá bom. Vamos conversar com o jurídico da empresa e ver o que pode ser feito.
— Ah, mais uma coisa — disse Otacílio, levantando o dedo —. Também recomendaria desligar a Cláudia dos grupos de WhatsApp.
Cláudia gritou da copa:
— EU OUVI!
Adalberto, nesse momento, fingia espirrar.
Mas era só pra disfarçar o riso.
Mais tarde, no fim do expediente, Otacílio foi embora deixando seu cartão com a frase:
"Justiça começa com J... de Jeito."
E Ednilson, aliviado, sentiu-se limpo.
Pelo menos até abrir o armário e encontrar um novo bilhete:
"Nunca vi alguém brigar tanto pra esconder o que sente. Mas tudo bem. Continuo aqui, seu admirador... do RH."
Letra impressa.
Fonte Arial 12.
E o perfume discreto da confusão, que Adalberto espalhava como quem borrifa lavanda num travesseiro antes de dormir.
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