Era uma manhã nublada quando Zé Mauro, o palhaço mais mal-afamado da cidade, recebeu no celular um e-mail com o timbre impecável do Hospital Santa Salvação, remetente: notificacoes@santasalvacao.org.
Assunto:
"Solicitação Urgente de Exames Proctológicos - Zé Mauro da Silva"
No corpo do texto, entre termos médicos assustadores e uma frieza administrativa típica de hospitais, lia-se:
“Prezado Sr. Mauro, em virtude de relatos e sintomas associados a ingestão exagerada de pimenta malagueta, cocadas cristalizadas e bombons de pimenta dedo-de-moça, solicitamos seu comparecimento ao setor 3B para realização de exames proctológicos, incluindo colonoscopia e toque retal com dupla conferência.
Caso o senhor se recuse, será registrado em prontuário que houve negligência voluntária diante de possível quadro grave de hemorroida avançada tipo 3B inflamada.”
Zé Mauro arregalou os olhos.
— EU?! HEMORRÓIDA?! MALAGUETA?! — berrou para o gato, que dormia no sofá.
Num rompante, botou a roupa de palhaço (única roupa limpa no momento), entrou num ônibus, desceu na frente do hospital e invadiu a recepção como um furacão de maquiagem derretida e indignação.
— EU QUERO FALAR COM O CHEFE DOS MÉDICOS! EU NÃO TENHO HEMORRÓIDA!
EU SOU UM HOMEM LIMPO! SÓ COMI UM KIBE APIMENTADO EM 2009!
A recepcionista travou o teclado no susto.
— Senhor... o senhor tem agendamento?
— AGENDAMENTO?! VOCÊS É QUE TÃO ME AGENDANDO PRA MEXER NO MEU TRÁS SEM MINHA PERMISSÃO! — e bateu no balcão como se estivesse num tribunal popular.
— Mas... senhor Zé Mauro... não temos nenhum e-mail vindo do nosso sistema.
— TÁ AQUI Ó! — gritou, mostrando o celular com a mensagem, sem notar que a fonte usada era Comic Sans e o rodapé dizia:
"Hospital Santa Salvação - Confiança que escorre"
Segundos depois, o segurança chegou, duas enfermeiras vieram ver o que estava acontecendo, e uma médica jovem tentou acalmar:
— Senhor, não há nenhum pedido desse tipo, e nem usamos esse endereço eletrônico. Isso parece forjado.
Zé Mauro empalideceu, depois corou, depois ficou azul.
— FOI ELE. FOI AQUELE!
O DEMÔNIO DE GRAVATA: ADALBERTO!
No exato momento, Adalberto caminhava calmamente pela praça em frente ao hospital, chupando um drops de menta, com o mesmo ar de quem assiste uma boa novela.
Dentro do hospital, o caos se instalou:
– Duas pacientes gravaram o surto e já postavam no TikTok com a hashtag #PalhaçoDoToque.
– A segurança discutia se ligava pra psiquiatria ou pra TI.
– Zé Mauro exigia um exame ali mesmo, na frente de todos, só “pra provar que não tem nada inflamado!”
No final, após 40 minutos de histeria, gritos e discussões sobre cocada apimentada, o hospital imprimiu um atestado negando qualquer procedimento solicitado ou suspeita de hemorroida, só para ele ir embora.
Na saída, ainda transtornado, Zé Mauro viu um bilhete preso em seu para-brisa:
“Evite pimentas e e-mails falsos.
Cuide-se, Zé.
— A.”
Ninguém viu quem deixou o bilhete.
Mas na recepção do hospital, um rapaz alto, de gravata azul, riu baixinho enquanto fingia esperar atendimento.
Seu nome no crachá: Adalberto – TI Temporário.
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