Adalberto agora usava óculos de leitura e pastava os cabelos grisalhos com um pente pequeno que ficava sempre no bolso da camisa. Trabalhava no setor de tecnologia da Translog Express — nome bonito para “arruma impressora e troca senha do Wi-Fi”.
Ninguém sabia ao certo onde ele havia aprendido tanto de computadores, mas o fato era que Adalberto entendia de máquinas como padres entendem de pecado: por dentro.
Na empresa, havia muitos que lhe passavam batido, como sempre. Mas um deles — o Matheus do marketing — fazia questão de lembrar que Adalberto estava ultrapassado.
— O tio do TI mexe no Paint! — dizia rindo alto.
— Vai ver ele programou o Windows 95!
Matheus era do tipo que postava selfie até em enterro. Tinha cabelo com luzes, sorriso de consultório caro, e um Facebook cheio de frases motivacionais. Um personagem público de si mesmo.
Certa tarde, enquanto Matheus deixava o computador ligado com a senha salva no navegador — uma imprudência infantil diante de um homem como Adalberto —, a oportunidade surgiu como quem oferece maçã ao jardineiro.
Entrou no Facebook dele. Rápido. Sem hesitar.
Abriu o campo de publicação.
O que postou?
Não pornografia, nem xingamentos. Nada assim.
Foi pior.
Foi o que o próprio Matheus mais temia:
Verdade.
Adalberto, com a precisão de um poeta de guerra, escreveu:
“Tem dias em que eu só queria abraçar meu travesseiro e chorar ouvindo Sandy & Júnior.
Quando estou sozinho, finjo entrevistas no espelho, como se fosse famoso.
Às vezes uso meias do Pikachu e acho que ninguém percebe.
E sim, eu dancei Rouge na festa junina de 2004. Inteira.”
E postou.
Não marcou ninguém. Não botou risada. Apenas deixou lá, seco, direto, impessoal.
Como um bilhete deixado na porta da alma.
Em menos de 10 minutos:
— Curtidas.
— Risos.
— Gente comentando “força, irmão!”
— Um colega mandou: “Você é corajoso demais, eu nunca conseguiria admitir isso…”
— Uma ex-namorada respondeu: “Você sempre foi fofo, mesmo escondendo.”
— Um desconhecido compartilhou com a legenda: “Que homem sincero!”
Matheus, ao ver, quase caiu da cadeira.
Tentou apagar, mas já era tarde.
O post tinha virado história.
Correu dizendo que foi hackeado, que aquilo era montagem, que “não sou eu!”.
Mas ninguém acreditou.
Porque, no fundo, era ele.
E o que escandaliza não é a mentira — é a verdade que a gente finge não carregar.
Adalberto?
Na sala ao lado, recompunha a rede de impressoras.
Sem pressa.
Sem culpa.
Com um leve sorriso nos lábios.
E se perguntassem por quê, talvez dissesse algo assim — meio Pessoa, meio vingança:
“O que revelo nos outros é o que escondo em mim.
E, às vezes, mostrar ao mundo o que alguém é,
dói mais do que ser invisível.”
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