Adalberto não era exatamente religioso, mas achava a igreja um lugar excelente para testar os limites da invisibilidade.
No domingo, como de costume, sentou-se nas últimas fileiras da Paróquia São Jorge de Capadócia — a mesma onde os fiéis se benziam até ao ver o panfleto do dízimo.
Era o último domingo do mês, dia do Grupo de Oração das Famílias. Um encontro animado, com louvor, partilha e, claro, WhatsApp fervendo com mensagens de fé, emojis de pombinha e gifs de Jesus piscando.
Adalberto, com seu celular discreto e sua mente afiada como navalha de barbeiro antigo, viu ali um campo fértil.
Pediu emprestado o celular da dona Sueli — senhora piedosa, conhecida pelas camisetas com frases como "Com Jesus no barco, tudo vai bem" —, com a desculpa de "ajustar o brilho".
Em menos de 15 segundos, fez o necessário.
No grupo do WhatsApp "Famílias em Cristo ❤️🔥", apareceu a seguinte mensagem, enviada do número da própria Dona Sueli:
“Irmãos, o louvor está bonito, mas o cheiro do desodorante vencido de alguns aqui tá me levando a orar em línguas de verdade.”
“E, só pra constar: a irmã Marileide desafina mais que porta de ferro enferrujada.”
O grupo, acostumado com mensagens de bênçãos e pedidos de oração, parou.
Marileide, que nesse momento estava exatamente no refrão de “Restaura-me, Senhor”, sentiu as palavras murcharem na garganta.
— Foi você, Sueli? — perguntou alguém, baixinho.
Sueli arregalou os olhos, o terço caiu da mão.
— O quê?! Eu nem sei digitar essas coisas!
O padre Valter, percebendo o clima carregado, tentou um salmo de apaziguamento, mas já era tarde:
A irmã Marileide foi embora antes do Amém final.
A Dona Sueli jurava de pés juntos que “alguém mexeu no meu aparelho”.
E as três irmãs do grupo de canto se recusaram a liderar o próximo louvor.
Na fileira do fundo, Adalberto apenas guardou o celular no bolso e se levantou calmamente.
Passou pela pia batismal, molhou os dedos, fez o sinal da cruz com convicção, e sussurrou para si mesmo:
“Até os anjos precisam de um pouco de entretenimento.”
E saiu, deixando para trás um grupo dividido entre o perdão cristão… e a vontade de descobrir quem foi o agente do caos que fez o culto virar comédia.
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