domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e o Grupo de Oração

 Adalberto não era exatamente religioso, mas achava a igreja um lugar excelente para testar os limites da invisibilidade.

No domingo, como de costume, sentou-se nas últimas fileiras da Paróquia São Jorge de Capadócia — a mesma onde os fiéis se benziam até ao ver o panfleto do dízimo.

Era o último domingo do mês, dia do Grupo de Oração das Famílias. Um encontro animado, com louvor, partilha e, claro, WhatsApp fervendo com mensagens de fé, emojis de pombinha e gifs de Jesus piscando.

Adalberto, com seu celular discreto e sua mente afiada como navalha de barbeiro antigo, viu ali um campo fértil.

Pediu emprestado o celular da dona Sueli — senhora piedosa, conhecida pelas camisetas com frases como "Com Jesus no barco, tudo vai bem" —, com a desculpa de "ajustar o brilho".
Em menos de 15 segundos, fez o necessário.

No grupo do WhatsApp "Famílias em Cristo ❤️🔥", apareceu a seguinte mensagem, enviada do número da própria Dona Sueli:

“Irmãos, o louvor está bonito, mas o cheiro do desodorante vencido de alguns aqui tá me levando a orar em línguas de verdade.”

“E, só pra constar: a irmã Marileide desafina mais que porta de ferro enferrujada.”

O grupo, acostumado com mensagens de bênçãos e pedidos de oração, parou.

Marileide, que nesse momento estava exatamente no refrão de “Restaura-me, Senhor”, sentiu as palavras murcharem na garganta.

— Foi você, Sueli? — perguntou alguém, baixinho.

Sueli arregalou os olhos, o terço caiu da mão.
— O quê?! Eu nem sei digitar essas coisas!

O padre Valter, percebendo o clima carregado, tentou um salmo de apaziguamento, mas já era tarde:
A irmã Marileide foi embora antes do Amém final.
A Dona Sueli jurava de pés juntos que “alguém mexeu no meu aparelho”.
E as três irmãs do grupo de canto se recusaram a liderar o próximo louvor.

Na fileira do fundo, Adalberto apenas guardou o celular no bolso e se levantou calmamente.

Passou pela pia batismal, molhou os dedos, fez o sinal da cruz com convicção, e sussurrou para si mesmo:

“Até os anjos precisam de um pouco de entretenimento.”

E saiu, deixando para trás um grupo dividido entre o perdão cristão… e a vontade de descobrir quem foi o agente do caos que fez o culto virar comédia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário