domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e o Grupo de Oração

 Adalberto não era exatamente religioso, mas achava a igreja um lugar excelente para testar os limites da invisibilidade.

No domingo, como de costume, sentou-se nas últimas fileiras da Paróquia São Jorge de Capadócia — a mesma onde os fiéis se benziam até ao ver o panfleto do dízimo.

Era o último domingo do mês, dia do Grupo de Oração das Famílias. Um encontro animado, com louvor, partilha e, claro, WhatsApp fervendo com mensagens de fé, emojis de pombinha e gifs de Jesus piscando.

Adalberto, com seu celular discreto e sua mente afiada como navalha de barbeiro antigo, viu ali um campo fértil.

Pediu emprestado o celular da dona Sueli — senhora piedosa, conhecida pelas camisetas com frases como "Com Jesus no barco, tudo vai bem" —, com a desculpa de "ajustar o brilho".
Em menos de 15 segundos, fez o necessário.

No grupo do WhatsApp "Famílias em Cristo ❤️🔥", apareceu a seguinte mensagem, enviada do número da própria Dona Sueli:

“Irmãos, o louvor está bonito, mas o cheiro do desodorante vencido de alguns aqui tá me levando a orar em línguas de verdade.”

“E, só pra constar: a irmã Marileide desafina mais que porta de ferro enferrujada.”

O grupo, acostumado com mensagens de bênçãos e pedidos de oração, parou.

Marileide, que nesse momento estava exatamente no refrão de “Restaura-me, Senhor”, sentiu as palavras murcharem na garganta.

— Foi você, Sueli? — perguntou alguém, baixinho.

Sueli arregalou os olhos, o terço caiu da mão.
— O quê?! Eu nem sei digitar essas coisas!

O padre Valter, percebendo o clima carregado, tentou um salmo de apaziguamento, mas já era tarde:
A irmã Marileide foi embora antes do Amém final.
A Dona Sueli jurava de pés juntos que “alguém mexeu no meu aparelho”.
E as três irmãs do grupo de canto se recusaram a liderar o próximo louvor.

Na fileira do fundo, Adalberto apenas guardou o celular no bolso e se levantou calmamente.

Passou pela pia batismal, molhou os dedos, fez o sinal da cruz com convicção, e sussurrou para si mesmo:

“Até os anjos precisam de um pouco de entretenimento.”

E saiu, deixando para trás um grupo dividido entre o perdão cristão… e a vontade de descobrir quem foi o agente do caos que fez o culto virar comédia.

O invisível e o amigo oculto

 Era dezembro. O calor grudava nas costas e o ventilador da repartição girava como quem hesitava entre viver e pedir aposentadoria.

No Setor de Ajustes e Inconsistências Contábeis, a decoração natalina parecia feita por alguém que odeia dezembro: três bolas murchas, uma rena sem olho e uma fita vermelha que mais lembrava esparadrapo.

Mas havia o amigo oculto.
E isso bastava para gerar tensão.

Adalberto, claro, participava — embora ninguém lembrasse de tê-lo tirado, nem de ter tirado ele. Invisível, como sempre. Mas o nome estava na lista, letra torta, entre o do chefe e da moça do protocolo.

No dia da revelação dos presentes, reuniram todos na sala de reuniões. Panetone genérico, refrigerante quente e microfone com eco. O chefe abriu os trabalhos com um discurso que era uma ameaça passiva:
— O importante é a intenção, não o valor. — disse, encarando o financeiro.

Quando chegou a vez de Ricardo, o almofadinha do setor de contratos, ele foi até a frente e anunciou, sem saber que já era parte de um teatro montado:
— Meu amigo oculto é alguém... muito especial. Discreto. Gente boa... às vezes meio esquisito, mas... enfim.

Entregou o presente: uma caixa de papel craft, com fita azul e um cartão que dizia apenas:
“Seja mais cheiroso em 2025.”

Dentro, um desodorante roll-on e um perfume da marca “Fierce Instinct” — embalagem duvidosa, promessa exagerada.

A sala explodiu em risadinhas abafadas.
Adalberto, do canto, cruzou as pernas com calma.

Foi então que, discretamente, o presente seguinte apareceu no colo de Ricardo, sem ninguém saber quem o havia deixado ali. Um envelope. Sem nome.

Ricardo abriu.
Dentro, uma foto impressa: ele, sem camisa, num grupo de musculação de Facebook, com a legenda:
“Se você for meu amigo oculto, me dá suplemento de verdade.”

A sala parou.
Alguns engasgaram com a uva passa.
Outros disfarçaram o riso.

— Isso... isso não é meu! — disse Ricardo, o rosto já beterraba.
— Que coisa feia... — murmurou Dona Zuleica, com uma expressão de missa interrompida.

Ricardo jurava que nunca tinha mandado aquilo.
Mas a imagem estava impressa, plastificada e com o carimbo da impressora da sala ao lado.

A suspeita virou riso.
O riso virou desconforto.
O chefe pediu que “todos voltassem aos seus lugares” e que “o espírito natalino não fosse perdido por bobagens”.

Ninguém descobriu quem colocou o envelope no colo de Ricardo.
Mas Adalberto, do seu canto, tirou um bombom da caixinha e murmurou, quase para si mesmo:

“Amigo oculto é só mais uma forma social de dizer o que ninguém tem coragem.”

E passou o dedo na borda do copo de plástico como quem assina o mundo em silêncio.

Adalberto e o Espelho de Facebook

 Adalberto agora usava óculos de leitura e pastava os cabelos grisalhos com um pente pequeno que ficava sempre no bolso da camisa. Trabalhava no setor de tecnologia da Translog Express — nome bonito para “arruma impressora e troca senha do Wi-Fi”.

Ninguém sabia ao certo onde ele havia aprendido tanto de computadores, mas o fato era que Adalberto entendia de máquinas como padres entendem de pecado: por dentro.

Na empresa, havia muitos que lhe passavam batido, como sempre. Mas um deles — o Matheus do marketing — fazia questão de lembrar que Adalberto estava ultrapassado.

— O tio do TI mexe no Paint! — dizia rindo alto.
— Vai ver ele programou o Windows 95!

Matheus era do tipo que postava selfie até em enterro. Tinha cabelo com luzes, sorriso de consultório caro, e um Facebook cheio de frases motivacionais. Um personagem público de si mesmo.

Certa tarde, enquanto Matheus deixava o computador ligado com a senha salva no navegador — uma imprudência infantil diante de um homem como Adalberto —, a oportunidade surgiu como quem oferece maçã ao jardineiro.

Entrou no Facebook dele. Rápido. Sem hesitar.
Abriu o campo de publicação.

O que postou?
Não pornografia, nem xingamentos. Nada assim.
Foi pior.
Foi o que o próprio Matheus mais temia:
Verdade.

Adalberto, com a precisão de um poeta de guerra, escreveu:

“Tem dias em que eu só queria abraçar meu travesseiro e chorar ouvindo Sandy & Júnior.
Quando estou sozinho, finjo entrevistas no espelho, como se fosse famoso.
Às vezes uso meias do Pikachu e acho que ninguém percebe.
E sim, eu dancei Rouge na festa junina de 2004. Inteira.”

E postou.

Não marcou ninguém. Não botou risada. Apenas deixou lá, seco, direto, impessoal.
Como um bilhete deixado na porta da alma.

Em menos de 10 minutos:
— Curtidas.
— Risos.
— Gente comentando “força, irmão!”
— Um colega mandou: “Você é corajoso demais, eu nunca conseguiria admitir isso…”
— Uma ex-namorada respondeu: “Você sempre foi fofo, mesmo escondendo.”
— Um desconhecido compartilhou com a legenda: “Que homem sincero!”

Matheus, ao ver, quase caiu da cadeira.
Tentou apagar, mas já era tarde.
O post tinha virado história.

Correu dizendo que foi hackeado, que aquilo era montagem, que “não sou eu!”.
Mas ninguém acreditou.
Porque, no fundo, era ele.
E o que escandaliza não é a mentira — é a verdade que a gente finge não carregar.

Adalberto?
Na sala ao lado, recompunha a rede de impressoras.
Sem pressa.
Sem culpa.
Com um leve sorriso nos lábios.

E se perguntassem por quê, talvez dissesse algo assim — meio Pessoa, meio vingança:

“O que revelo nos outros é o que escondo em mim.
E, às vezes, mostrar ao mundo o que alguém é,
dói mais do que ser invisível.”

Adalberto aos Dez Anos, ou A Arte de se Ausentar de Si

 Adalberto tinha dez anos e já conhecia o sabor ácido da invisibilidade. Não a invisibilidade mágica dos contos, mas a outra — aquela que se instala quando ninguém espera nada de você, nem mesmo que responda à chamada.

Era o tipo de criança que, mesmo de frente para o professor, era chamada de “o de trás”. Seu caderno era limpo, não por zelo, mas por falta de anotações. Tinha os olhos sempre meio vazios, como se parte dele tivesse ficado em casa ou não tivesse vindo com o corpo.

Naquela manhã, a sala do 5º ano estava entregue à distração. A professora escrevia datas no quadro, o ventilador girava com a força exata de um suspiro, e havia um chiclete no bolso de Adalberto — daqueles cor-de-rosa que perdem o gosto em vinte segundos.

Na carteira da frente, sentava-se Fabiane. Cabelos longos, castanhos e armados, sempre com presilhas coloridas e um laço exagerado. Era a menina que falava alto, ria alto e andava como se a escola fosse passarela. Para Adalberto, ela era uma peça muito viva num mundo muito esmaecido.

Talvez por isso, ou por outra razão que nunca admitiria nem para si mesmo, ele fez o que fez.
Mastigou o chiclete. Macio, quente.
E, num impulso quase teatral — como se estivesse de fora, observando-se —, colou o chiclete bem no centro do cabelo de Fabiane. Apertou com firmeza. Sentiu a textura se perder entre os fios.

Logo depois, como se sua própria alma usasse máscara, apontou com o dedo curto e decidido:
— Professor! O Caio que fez!

Caio. O menino mais calado da sala. Que sentava ao lado da lixeira. Que gaguejava ao ler em voz alta. Que guardava os lápis por ordem de cor.

A professora olhou. Fabiane gritou. O caos desceu como cortina.
— Tem um negócio no meu cabelo!!! — gritou ela, puxando os fios, os olhos em pânico.
Chiclete no cabelo é sentença. Não há apelação. Apenas corte.

A mãe foi chamada. Tesoura em mãos. Saíram com Fabiane chorando, segurando uma mecha no bolso do casaco e um silêncio vingativo no olhar.

Caio, perplexo, foi levado ao diretor.
Tentou se explicar.
— Eu... eu não...
Mas a palavra "não" não corta o chiclete. Nem convence quando vem de um menino que já ninguém ouve.

Adalberto ficou sentado. Em silêncio. Ninguém o interpelou. Ninguém o notou.

E ali, entre a carteira e o vazio, teve um pensamento que não sabia nomear: uma culpa sem forma, uma espécie de peso que não doía, mas que se alojava — como um segundo corpo dentro do seu.

Talvez, se fosse Fernando Pessoa, teria dito:

“Fiz o que não fiz,
e o outro sofreu o que não era dele.
A justiça não é cega —
só olha para o lado errado.”

Mas Adalberto não disse nada. Nunca dizia.
Só mastigava o silêncio, como quem espera que o gosto volte.

O Invisível e a Proposta no Grupo Corporativo

 Era uma segunda-feira pós-feriado na Translog Express. A impressora havia voltado a engasgar, a cafeteira parecia cuspir óleo diesel, e os ânimos no setor de atendimento estavam suspensos por um fio de paciência.

Adalberto, como sempre, era o móvel humano da sala: ninguém tropeçava nele porque ninguém percebia sua presença. No crachá, o nome desbotado era só um lembrete de que ele ainda estava oficialmente ali.

Um mês havia se passado desde o escândalo Douglas-Breno, que ainda ecoava em cochichos no refeitório. Mas como toda tragédia de firma, acabara substituída por planilhas atrasadas e bolos secos no aniversário de setor.

Naquela manhã, quem chamava atenção era Flavinho do almoxarifado. Jovem, metido a galanteador, com gel demais no cabelo e botão de menos na camisa. Dizia-se “bom de lábia” e “fera no toque da conquista”.

O celular de Flavinho estava destravado e abandonado em cima de uma pilha de formulários. E era aí que Adalberto, eterno maestro do caos invisível, encontrava sua batuta.

Aberto no WhatsApp. O grupo: "Equipe Translog – Oficial 🚛"
44 membros. Supervisores, RH, até a dona da empresa, Dona Márcia — casada, respeitadíssima, do tipo que fala “querido” e demite com um aceno.

Adalberto respirou fundo. Digitou com precisão cirúrgica:

“Dona Márcia, eu não aguento mais esconder…
Seus olhos me perseguem no estoque, seus passos ecoam no meu coração.
Sei que é casada, mas a paixão não respeita aliança.
Vamos conversar, só nós dois. Um vinho, talvez.
Flávio.”

Mandou.
No grupo da firma.
Com emoji de coração, taça de vinho, e uma rosa.

Silêncio. Por três segundos.

Depois:
— “????????”
— “É sério isso?”
— “Tem criança lendo aqui”
— “É hackeado ou surto?”
— “Rapaz…”

Dona Márcia digitando...
Digitando...
Digitando...
Parou.
Digitando de novo.
A tensão dava pra cortar com colher de plástico.

A mensagem veio:

“Flávio, sugiro que se dirija imediatamente ao RH. E, por gentileza, use camisas com botões fechados.”

Seguiu-se uma enxurrada de reações: carinhas chorando de rir, gifs de explosões, alguém mandou um áudio imitando violino triste.

Flavinho, que voltava do banheiro mascando chiclete com a confiança de um pavão, parou ao ver os olhares. Pegou o celular. Leu.
Empalideceu.
— EU NÃO MANDEI ISSO!

— Foi você mesmo, irmão. Tá no grupo oficial, tá assinado, tem até flor!

Flavinho foi chamado ao RH sob o olhar congelado de Márcia. Saiu meia hora depois com olhos vidrados, camisa fechada até o pescoço e sem gel no cabelo.

Na sala, Adalberto retornou à sua mesa. Abriu a planilha “itens vencidos 2023”.
Sorriu.
Como diria seu autor favorito, Millôr Fernandes:

“A vida é uma peça de humor. O problema é que quase ninguém acha graça enquanto está no palco.”

Mas Adalberto achava. Achava muita.

O Invisível e o Amor Que Não Era Dele

Era uma tarde sem importância no escritório da Translog Express — empresa que entregava papéis com a mesma seriedade com que seus funcionários matavam tempo no cafezinho. O ar-condicionado tossia. A máquina de café gotejava um resto de expresso sem alma.

Adalberto, como sempre, passava despercebido entre as baias. Cabelos ralos, camisa bege, um crachá gasto preso com fita adesiva. Trabalhava no setor de cadastro, o tipo de função que ninguém sabe exatamente o que faz, mas que, quando falta, alguma coisa trava.

Sentado a duas baias dele, estava Douglas. Terno azul-marinho apertado, perfume forte, e aquele tipo de hétero que começa frases com “sou casado, mas posso elogiar, né?”. Mais adiante, no financeiro, havia o Breno — camisa polo, barba por fazer e o costume de usar fones mesmo quando não estava ouvindo nada.

Adalberto já sabia: Douglas e Breno não se suportavam, mas mantinham a máscara da cordialidade típica de ambientes onde o RH vigia tudo.

Naquele dia, na hora do almoço, Douglas esqueceu o celular em cima da mesa. Travado, mas não bloqueado — aberto na conversa do WhatsApp com Breno. Uma troca seca de mensagens sobre o rateio do estacionamento.

Adalberto, invisível até para as câmeras de segurança, deslizou até o aparelho. Com um gesto tranquilo, digitou:

“Eu fico te olhando e querendo dizer, mas não tenho coragem. Acho que estou apaixonado. Só queria que você soubesse. Desculpa se for demais.”

Enviou.

Saiu.
Sentou-se novamente e abriu uma planilha qualquer, fingindo revisar CPF.

O caos chegou quinze minutos depois.

Breno, com o celular em mãos, foi até a baia de Douglas. Segurava o aparelho como quem carrega um teste de gravidez positivo.
— Que porra de mensagem é essa?

Douglas, que voltava do almoço mascando chiclete, travou no passo.
— Que mensagem?

— Essa aqui, cara! — estendeu o celular, dedo tremendo.

Douglas leu. Empalideceu. Riu. Depois parou de rir.
— Isso é trote. Tu tá me zoando?

— Zoando? Foi você que mandou!

— Eu? Tá maluco? Eu sou casado, irmão! Tenho filha!

— E eu tenho nojo! Não vem com gracinha, não! Você que me olha torto desde que eu entrei! Tá achando o quê?

A discussão atraiu o setor todo. Teve supervisora gritando “vamos manter o respeito!”, teve gente filmando, teve estagiário indo buscar o RH.

Adalberto apenas levantou os olhos da planilha e suspirou, como quem lamenta a pressa do mundo. Depois se levantou, foi até o filtro, encheu um copo d’água e voltou calmamente, saboreando o espetáculo.

Na semana seguinte, Breno foi transferido pro setor de logística externa. Douglas passou a trancar o celular até pra ir ao banheiro. E o grupo do WhatsApp da firma ficou silencioso por dois dias inteiros.

Adalberto, esse, manteve-se onde sempre esteve: na sombra do canto da sala, entre a impressora sem papel e a planta artificial. Invisível. Mas atento. Esperando a próxima abertura de tela. 

O Invisível e o Amor Rubro-Negro

 Adalberto estava no churrasco de família como quem cumpre expediente. Sentado num canto da varanda, equilibrava o copo de refrigerante morno no joelho e observava os rituais masculinos em volta da churrasqueira: piadas recicladas, tapas nas costas, discussões sobre pênaltis de 2009.

Yuri — o primo — liderava a roda como sempre. Camiseta justa, boné virado pra trás, riso alto e musculatura ostensiva. Havia algo nele que exalava segurança de quem nunca passou uma tarde inteira em silêncio num refeitório.

O celular de Yuri estava largado sobre a mesa de plástico, carregando sob o sol. Uma notificação piscava: "Trem do Mengão🔥⚽".

Adalberto esticou a perna. Não era por vingança. Era por esporte.

Deslizou o dedo, abriu o WhatsApp. Vinte e três marmanjos: amigos, ex-colegas, vizinhos — todos rubro-negros, todos com avatares de jogadores berrando ou taças erguidas.

Digitou com calma, como quem escreve bilhete de despedida:

“Eu te amo. E não é de agora. Tô cansado de esconder. A verdade é que eu amo vocês. Cada um desse grupo. Tô falando sério.”

Coração vermelho. Bandeira do Flamengo. Uma lágrima emoji.

Mandou.

Fechou o app, colocou o celular exatamente como estava, e voltou a observar.

Do outro lado da varanda, Yuri mordeu uma coxa de frango, riu de uma piada sobre o VAR, e então viu a tela acender.

— Que porra é essa? — disse alto, parando de mastigar.

Silêncio no grupo da churrasqueira. Silêncio na varanda. Silêncio até na casa da vizinha.

O grupo "Trem do Mengão" respondeu em segundos:

— “Kkkkkkkkkk que isso, irmão?”
— “Tá falando sério ou é pegadinha?”
— “É do jogo ou do coração?”
— “Fica tranquilo, Yuri. Eu também te amo. 😂”
— “Agora tudo faz sentido... aquele dia do churrasco em 2021... 👀”
— “Já pode trocar o nome do grupo pra ‘Amor entre Rubros’”
— “Te entendo, mano. Esse time emociona mesmo.”
— “Aí eu choro 😢🔥”

Yuri ficou vermelho. Primeiro de confusão, depois de raiva.
— Alguém pegou meu celular, véi. Quem foi o filho da...?

Olhou em volta. Ninguém reagiu. Alguns riam abafado. Outros evitavam o olhar. Yuri encarou Adalberto por um segundo — aquele primo calado, o que trabalha com "coisa de computador", o que nunca é marcado em foto nenhuma.

Adalberto apenas sorriu, muito levemente. E deu outro gole no refrigerante.

Yuri saiu bufando, celular em punho, dizendo que ia sair do grupo e criar outro “com gente normal”.

No fim da tarde, Adalberto ajudou a guardar as cadeiras. Saiu cedo, como sempre. Sem levantar suspeitas. Sem dizer nada. Mas, naquela noite, dormiu com o telefone no peito, ainda rindo do novo nome do grupo:

"Mengão e Emoção ❤️🖤"

E uma nova mensagem fixada:

“Sentimento é pra quem tem raça.”

O Menino Invisível e a Festa das Cabeças Trocadas

 Na quarta série da Escola Municipal Prof.ª Efigênia Vasconcelos, Adalberto já era um vulto em miniatura. Não sujava a lousa, não levava bilhete na agenda e nunca esquecia a régua — mas ninguém lembrava dele nas rodas de perguntas nem nas fotos da gincana. Na chamada, o silêncio entre o “Bruno” e a “Camila” era o único sinal de que ele existia.

Por isso, Adalberto ouvia. Observava. E tramava.

Tudo começou numa sexta-feira de avaliação de Ciências. Dona Carmem explicava, com sua voz de desânimo histórico, as diferenças entre répteis e anfíbios. Enquanto isso, Adalberto testava a elasticidade de um estilingue feito com a liga de borracha de um estojo da Turma da Mônica. Não tinha alvos definidos — apenas convicção.

A primeira vítima foi Jeferson, o popular. O elástico acertou a nuca dele justo quando escrevia “pele úmida” na resposta sobre o sapo-cururu. Jeferson virou-se num salto, olhos faiscando, e apontou para Tainá, que estava com um lápis de ponta afiada e cara de inocente ofensiva.
— Foi ela!

A confusão começou ali, com Tainá em lágrimas, Jeferson jurando por todos os santos e Dona Carmem gritando um “Ninguém vai sair pra recreio!” tão definitivo que as janelas pareceram embaçar.

Mas Adalberto queria mais.

No dia seguinte, aproveitando o intervalo, plantou um chiclete mascado (dos outros, é claro — ele era metódico demais pra mascar qualquer coisa) no encosto da cadeira de Felipe, o menino que tinha alergia a injustiças e usava fichário cor-de-limão. Felipe sentou, grudou, levantou aos gritos:
— Isso é coisa da Isadora! Ela sempre tem chiclete!

Isadora, que de fato mascava como uma secretária dos anos 90, foi pega de calça curta. Quando tentou explicar, Felipe já listava crimes antigos dela, como uma promotoria descontrolada: "Ela colou na prova de matemática! Ela quebrou o apontador do prof. Danilo! Ela riscou o cartaz da dengue!"

Mais uma leva pra diretoria.

Adalberto, sentado no seu canto, abria discretamente um pacote de bolacha cream cracker — que ninguém pedia, pois todos achavam que ele levava por falta de opção.

A glória veio com a “atividade da cabeça”. A professora trouxe máscaras de papel machê para os alunos pintarem. O plano de Adalberto foi simples e cruel: trocou, na hora do recreio, os nomes colados embaixo das máscaras. A de Jeferson (pintada com escamas verdes e dentes afiados) foi parar com Camila. A de Camila (rosa com glitter e uma frase motivacional) foi parar com Bruno, que se recusava a usar rosa desde a Educação Infantil.

Na hora da entrega, o caos foi absoluto. Choro, ranger de dentes, gritos de “roubaram a minha identidade!”. Teve até um começo de vômito emocional.

Resultado: cinco alunos na diretoria. A professora, com enxaqueca. O diretor, com uma pasta nova de advertências.

E Adalberto?

Fez um desenho silencioso: um sapo sorrindo, com óculos escuros, embaixo de um sol que brilhava só pra ele.

No final da aula, pegou sua lancheira de couro sintético e foi embora devagar, com a calma dos inocentes. Ou dos invisíveis. Que, às vezes, são os mais perigosos.

O invisível e o tapete de fundo

 Desde a infância, Adalberto suspeitava que era invisível. Não como nos livros de capa mole que lia embaixo do beliche, mas invisível à maneira dos que passam pela sala e ninguém percebe. Gente que entra num elevador e ninguém se incomoda em apertar o botão por ela. Com o tempo, Adalberto refinou essa habilidade: aprendeu a caminhar entre as mesas da repartição sem provocar uma só interrupção no teclar dos teclados.

Na repartição — Setor de Ajustes e Inconsistências Contábeis do município — era invisível até para o chefe, que certa vez o passou direto para pedir café a um estagiário. Mas Adalberto não se ofendia. O invisível, dizia para si mesmo, tem o privilégio de andar pelo mundo como um gato de biblioteca: sem ser notado, mas sempre presente.

Foi numa terça-feira abafada que decidiu colocar sua invisibilidade à prova. Havia um colega novo, Wellington, desses que trazem marmita vegana e usam palavras como “sinergia”. Tinha voz de rádio comunitária e mania de organizar os papéis dos outros, o que para Adalberto era um crime equivalente a danificar um vitral de igreja barroca.

Primeiro, Adalberto trocou o atalho do teclado do Wellington. A tecla que antes salvava, agora abria um GIF animado de um gato pelado dançando ao som de um tambor distante. Ninguém percebeu — até a sexta vez em que o som escapou durante a videoconferência com a secretária adjunta.

Depois veio a segunda fase: Adalberto, em seu manto de invisibilidade metafísica (e um crachá virado ao contrário), entrou sorrateiro na máquina do rapaz e trocou o papel de parede. No lugar da foto do seu golden retriever chamado Dharma, apareceu um banner de letras garrafais:
“TODOS AQUI SÃO INÚTEIS, MENOS EU.”
Fonte Comic Sans. Fundo neon. Um clássico do desprezo.

Na manhã seguinte, o setor era só cochicho. Dona Zuleica, que falava com as plantas, olhava Wellington como se ele tivesse cuspido no vaso da samambaia. E foi quando Adalberto, ainda invisível, preparou a cereja do bolo: alterou a assinatura automática do e-mail do rapaz para incluir a frase:
“Favor não me incomodar com problemas de gente medíocre.”

O e-mail foi enviado à chefia. À ouvidoria. À vice-prefeitura. E, por engano, à mãe de Wellington, que mantinha o e-mail do filho salvo desde os tempos de feira de ciências.

A reunião extraordinária aconteceu numa sexta. Os chefes chamaram Wellington para uma “conversa”. Ele entrou com seu potinho de lentilha, saiu com o aviso de suspensão. Ninguém o viu mais.

Adalberto, por sua vez, permaneceu. Invisível, como sempre. E agora com uma sala só sua. Fez questão de trocar o papel de parede do computador novo por um pôr-do-sol em tons tristes. Apenas para lembrar que, por vezes, a sombra não vem das nuvens — mas das figuras que não vemos.

E foi assim que o invisível ganhou um nome no crachá. Ainda que ninguém o olhasse nos olhos.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Responsabilidade com o Responsável

 Ser humano é mais do que viver para si mesmo. É também assumir o papel de guardiões do que nos foi confiado — animais, plantas, a terra. Temos o dom da razão, e com esse dom, vem a responsabilidade de cuidar, preservar e fortalecer a vida ao nosso redor.

Nosso cão não é apenas um companheiro. Ele é um amigo, um ser que depende de nós para viver com dignidade. E por isso, devemos ter responsabilidade com esse responsável — aquele que nos ama sem exigir nada, que nos protege, que se alegra com a nossa presença. O mínimo que devemos a ele é zelo, cuidado e consciência.

Não é ético forçar raças como os pugs, por exemplo, a se multiplicarem com genes que provocam sofrimento: narizes achatados, problemas respiratórios, dificuldades motoras. Isso é ir contra a natureza e contra o próprio princípio da criação. Criar um ser para viver doente é desumano. A genética deve ser usada para fortalecer, não para enfraquecer.

Da mesma forma, com as plantas que comemos, devemos cultivar com respeito e sabedoria. Plantas saudáveis nutrem melhor, resistem às pragas, enriquecem o solo. Mas quando manipulamos a natureza unicamente por lucro ou por vaidade, criamos frutos que duram mais na prateleira, mas não nutrem como deveriam. Estamos alimentando o corpo com menos do que ele precisa e o espírito com menos ainda.

A responsabilidade verdadeira é silenciosa, paciente, muitas vezes invisível. Ela está no criador que seleciona cães com boa respiração e estrutura forte. No agricultor que respeita a terra e escolhe sementes rústicas e vivas. Está em cada um que cuida do que é vivo como se cuidasse de um filho.

Porque no fim das contas, é isso mesmo: somos pais e mães da natureza domesticada. E assim como um pai deve ensinar e fortalecer o filho, nós devemos fortalecer os seres sob nossos cuidados.

O mundo não precisa de mais controle. Precisa de mais consciência do lugar que ocupamos. Precisamos voltar a agir como faziam nossos avós no campo: com sabedoria passada adiante, com respeito ao ritmo das coisas, com responsabilidade por cada vida sob nosso teto — ainda que essa vida seja de quatro patas ou de raízes fincadas na terra.

Se somos humanos, devemos ser também humanizadores. Cuidar para que cada ser que criamos ou cultivamos tenha não só vida, mas vida digna.

Quando a Genialidade Esquece da Vida

 Nietzsche, Schopenhauer, Cioran — três nomes imensos, pensadores de profundidade incontestável, cujas ideias atravessaram séculos. Mas há algo curioso, talvez até trágico, que une esses três gênios: nenhum deles teve filhos.

Nietzsche declarou a “morte de Deus”, e nisso ele não estava necessariamente errado. A modernidade, de fato, afastou-se dos símbolos, dos ritos e da transcendência. Mas quando se diz que Deus morreu, a pergunta mais profunda não é sobre o divino em si, mas: o que colocaremos no lugar? O que sustenta o sentido da vida quando os pilares tradicionais ruem?

Historicamente, comunidades tradicionais e religiosas sempre souberam responder a essa pergunta: a vida tem valor porque vem de algo maior, e porque deve continuar. A transmissão da vida, através dos filhos, era não só um instinto, mas um dever moral, uma parte natural da existência. E era ali, muitas vezes, que se encontrava a alegria, o trabalho com propósito, a memória e o futuro.

Mas isso não significa que uma comunidade secular esteja condenada ao vazio. Não é a religião em si que garante o sentido — é a cultura que valoriza a vida, que incentiva a fecundidade, que compreende que viver é também gerar, cuidar e transmitir. É isso que falta hoje: uma ideologia fecunda, uma visão de mundo que celebre a continuidade humana sem depender de dogmas.

Schopenhauer enxergava o sofrimento com precisão, mas não soube apontar o caminho para superá-lo: não é negando a vida que ela melhora, mas criando raízes. Cioran esculpiu o desespero com beleza, mas nunca ousou construir. Nietzsche sonhou com o “além-do-homem”, mas sem filhos, sem legado, sem casa, o além vira negação — não construção.

A verdadeira lucidez não está em apenas denunciar o caos. Está em responder a ele com coragem fecunda. Está em formar famílias, em transmitir valores, em plantar árvores que talvez não veremos crescer — mas que outros verão.

O que falta à modernidade não é fé em Deus, mas fé na vida. Falta cultura que celebre o nascimento. Falta orgulho em formar uma família. Falta política que favoreça o crescimento, não o encolhimento humano. Falta poesia que fale dos filhos. Falta filosofia que abrace o ciclo da vida, e não o lamente.

Que os novos pensadores não cometam o mesmo erro: que pensem, sim — mas que também vivam. Que construam. Que gerem. Que deixem não só livros e ideias, mas pessoas.

Porque no fim, a única filosofia que se sustenta é aquela que faz nascer.

Negar a Fertilidade: Um Ato Contra Si Mesmo

 Há algo profundamente errado quando um ser escolhe, conscientemente, interromper o próprio ciclo natural de vida. Não ter filhos — ou decidir nunca tê-los — pode parecer uma escolha racional e moderna, mas, sob o olhar da natureza e da ordem tradicional das coisas, é um ato de autonegação. Um gesto silencioso, porém radical, contra a própria existência.

É como pegar uma lâmina e se cortar. Como tomar um veneno sabendo que fará mal. Como entrar em uma casa e, voluntariamente, apagar todas as luzes e trancar as portas por dentro.

É como uma árvore que cresce vigorosa, estende seus galhos como braços para os céus — galhos esses que poderiam dar sombra, flores, frutos —, mas que, por vaidade ou confusão, começa a destruir suas próprias sementes. A civilização moderna, com seus galhos de tecnologia e consumo, parece esquecer que sem sementes, nenhuma árvore vive por muito tempo.

Imagine um gato que, por escolha própria, decide se castrar. Um comportamento impensável no mundo natural. Ou um chimpanzé macho que, sem traumas, sem doença, simplesmente se recusa a viver com o grupo, evita as fêmeas e se isola — algo extremamente raro e antinatural. Esse tipo de desvio só ocorre quando há algo profundamente errado no ambiente.

Pense numa formiga operária que se volta contra sua rainha e destrói o ninho — condenando a própria colônia à extinção. Ou numa abelha rainha que, diante das condições ideais, se recusa a botar ovos. Que sentido teria sua existência? Como continuaria a vida no enxame?

Essas comparações, embora simbólicas, ajudam a enxergar o absurdo que se tornou normal: negar a fertilidade como se ela fosse um fardo, e não um dom.

A civilização que rejeita os filhos rejeita o futuro. Está, aos poucos, desligando o motor da própria existência. E o faz de forma voluntária, com discursos sofisticados, mas vazios. É uma geração que quer tudo, menos continuar.

Por isso, negar os filhos é negar a si mesmo. É romper com a própria origem. É escolher o fim, ainda que se esteja cercado de vida.

A natureza não perdoa quem vai contra ela por muito tempo. O ciclo precisa continuar. E toda espécie que perde o instinto de reprodução… simplesmente desaparece.

Quantos Filhos Deveríamos Ter?

 Na natureza, cada espécie segue um ritmo próprio de reprodução. O número de filhotes que cada animal tem não é aleatório: ele reflete a luta pela sobrevivência, a sabedoria do instinto e o equilíbrio da vida.

Os sapos, por exemplo, botam centenas, até milhares de ovos. Desses, nascem girinos, mas a maioria não sobrevive: são predados, secam ao sol ou não chegam à fase adulta. Por isso, precisam gerar muitos para que alguns poucos cheguem à vida adulta. A natureza ajusta: quanto maior o risco de morte, maior o número de descendentes.

Já os macacos — especialmente os primatas como os chimpanzés — vivem em grupos sociais mais complexos e oferecem cuidado materno prolongado. Por isso, o número de filhotes é menor: uma fêmea chimpanzé terá, em média, de 3 a 6 filhotes ao longo da vida. É um número que permite à mãe cuidar, proteger e ensinar cada um. É pouco? Não. É o necessário para que a espécie continue com equilíbrio e dignidade.

E os seres humanos?

Se pensarmos de forma natural, como nossos antepassados viviam, uma mulher que se casasse por volta dos 18 anos, como sempre foi tradicional em muitas culturas, e que não usasse métodos contraceptivos artificiais, teria ciclos férteis até aproximadamente os 45 a 50 anos. Com um intervalo médio de 2 anos entre os partos, poderia, sem dificuldades, ter entre 10 a 14 filhos ao longo da vida. Com perdas naturais que ocorriam no passado (doenças, partos difíceis, mortalidade infantil), esse número se equilibrava.

Assim, uma média de 7 filhos por mulher seria, em um meio natural, algo bastante razoável e até necessário para garantir a continuidade da comunidade e da cultura familiar.

Contudo, na civilização moderna, esse número é visto como um exagero. A mulher é incentivada a adiar o casamento, priorizar estudos e carreira, usar anticoncepcionais e, muitas vezes, não ter filhos ou ter um ou dois no máximo. Tudo em nome de uma suposta liberdade e planejamento.

Mas o que ganhamos com isso?

Hoje temos remédios, vacinas, hospitais, antibióticos. As crianças dificilmente morrem de doenças simples. Isso quer dizer que poderíamos, com segurança, criar uma família numerosa, algo que antigamente era difícil. Mas escolhemos o contrário. O mundo moderno, com toda a sua segurança, está produzindo menos filhos do que nunca.

Não deveríamos nos preocupar?

A taxa de natalidade despenca. Muitos países já veem mais mortes do que nascimentos. As famílias se reduzem a casais solitários, idosos sem netos, crianças sem irmãos. E a solidão cresce, junto com a depressão, os distúrbios mentais, o vazio.

A natureza foi clara em sua lógica: viver é também passar adiante. Ter filhos é mais do que biologia. É legado, continuidade, amor em movimento. E negar esse instinto — por mais civilizados que sejamos — pode nos levar a um caminho frio e sem raízes.

Não seria hora de parar e refletir se o rumo que estamos seguindo é, de fato, o mais humano?