segunda-feira, 23 de junho de 2025

Plano de aula do 4º ano do ensino fundamental - História - parte 1

 PR.EF04HI10.c.4.20

UNIDADE TEMÁTICA:

Questões históricas relativas às migrações.

OBJETO DE CONHECIMENTO

Os processos migratórios para a formação do Brasil: os grupos indígenas, a presença portuguesa e a diáspora forçada dos africanos.

CONTEÚDOS:

Formação da sociedade brasileira/paranaense.

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM:

Compreender como se deu a chegada dos portugueses e africanos às terras brasileiras e à localidade paranaense associando à exploração das terras e recursos.

Introdução:

A fim de realizar uma atividade que trabalhe com uma linguagem distinta, reproduza para os alunos a música “Pindorama”, do grupo Palavra Cantada. Explique que o título da canção faz referência à forma como antigas populações indígenas se referiam ao território que viria a formar o Brasil. O termo é interpretado também como a mítica “terra sem mal”, em busca da qual alguns povos indígenas tupi realizavam constantes migrações.

Desenvolvimento:

Primeiro, reproduza a música sem a letra da canção; depois, realize uma segunda audição, dessa vez acompanhada da letra. Com essa variação, os alunos podem perceber as diferentes formas de fruição de uma música. 

Realize uma análise da letra da música.

Síntese integradora:

Após a audição, proponha algumas perguntas, como: 

Que fatos e personagens históricos são citados na música? 

Por que se afirma que Pindorama já existia antes da chegada de Cabral? 

O que são a Vera Cruz e o monte Pascoal? 

Quais significados a palavra “índias” tem na letra da música? 

Nas duas últimas estrofes, afirma-se que o “Brasil tá inteirinho na voz” e quem quiser descobri-lo, “só depois do ano 2000”. Como você entende essas afirmações? Explique.

Fontes:

Palavra Cantada | Pindorama

Vida Criança: Geografia e História: 4º ano / Valquiria Garcia, Caroline Minorelli e Charles Chiba. – 1. ed. - São Paulo: Saraiva Educação S.A., 2021.


Anexo:

Pindorama, Pindorama

É o Brasil antes de Cabral

Pindorama, Pindorama

É tão longe de Portugal


Fica além, muito além

Do encontro do mar com o céu

Fica além, muito além

Dos domínios de Dom Manuel


Vera Cruz, Vera Cruz

Quem achou foi Portugal

Vera Cruz, Vera Cruz

Atrás do Monte Pascoal


Bem ali, Cabral viu

Dia 22 de abril

Não só viu, descobriu

Toda a terra do Brasil


Pindorama, Pindorama

Mas os índios já estavam aqui

Pindorama, Pindorama

Já falavam tudo em tupi


Só depois vêm vocês

Que falavam tudo em português

Só depois, com vocês

Nossa vida mudou de uma vez


Pero Vaz, Pero Vaz

Disse numa carta ao rei

Que no altar, sob a cruz

Rezou missa o nosso frei


Mas depois, seu Cabral

Foi saindo devagar

Do país tropical

Para as Índias encontrar

Para as Índias, para as Índias

Mas as índias já estavam aqui

Avisamos, olha as índias!

Mas Cabral não entende tupi


Se mandou para o mar

Ver as índias em outro lugar

Deu chabu, deu azar

Muitas naus não puderam voltar


Mas enfim, desconfio

Não foi nada ocasional

Que Cabral, num desvio

Viu a terra e disse: Uau!

Não foi não, foi enfim, foi um plano imperial

Pra aportar seus navios num país monumental


A Álvares Cabral

A El-rei Dom Manuel

Ao índio do Brasil

E ainda a quem me ouviu


Vou dizer, descobri

O Brasil tá inteirinho na voz

Quem quiser vem ouvir

Pindorama tá dentro de nós


A Álvares Cabral

A El-rei Dom Manuel

Ao índio do Brasil

E ainda a quem me ouviu


Vou dizer, vem ouvir

É um país muito sutil

Quem quiser descobrir

Só depois do ano 2000!


Hoje todo mundo é emo. Você concorda?

Em um passado não tão distante, o termo "emo" surgiu para definir um estilo musical e um comportamento mais sensível, introspectivo e, para muitos, diferente do que era comum na sociedade. A música que marcou essa época, com sua letra cheia de sentimentos à flor da pele, traduzia bem as dificuldades e a delicadeza de quem se identificava com esse movimento.

Hoje, parece que todo mundo é "emo" — não mais apenas na forma de vestir ou na música, mas no jeito como lidamos com as situações do dia a dia. A palavra virou quase uma metáfora para a sensibilidade exagerada ou para quem demonstra fragilidade.

No entanto, é curioso perceber que, ao mesmo tempo em que muitas pessoas se sentem assim, a sociedade, as instituições e até as leis parecem agir como se fossem "emo" demais — isto é, frágeis e incapazes de se impor quando deveriam ser firmes e justas. A lei, que deveria proteger e garantir o certo, muitas vezes é flexível demais, deixando escapar o que realmente precisa ser combatido.

Assim como na música, onde o personagem sofre por pequenas coisas — a franja que esconde um olho, a maquiagem borrada, a dor do piercing —, a sociedade também parece sofrer por suas próprias "pequenas dores" enquanto ignora problemas maiores e mais graves que mereciam uma resposta forte e decisiva.

Em resumo, “ser emo” não é problema quando é uma forma legítima de expressar sentimentos. O problema é quando a sensibilidade vira desculpa para fraqueza e para a falta de atitude, seja em nossas vidas pessoais, seja nas estruturas que deveriam funcionar com firmeza para garantir justiça e ordem.

domingo, 22 de junho de 2025

Sobre a realidade da atualidade - 2025

No mundo ocidental, do qual faço parte, o hedonismo é uma marca evidente. Na mídia, nas músicas e no cotidiano, percebe-se uma constante exaltação do prazer imediato. Poucos parecem se importar com o futuro ou com o estado do mundo — o foco é viver o presente ao máximo. Se as consequências forem negativas lá na frente, que se culpem os hedonistas de hoje.

Não há, ao que parece, um esforço genuíno, vindo de nenhuma direção, para tornar o mundo um lugar melhor. O que prevalece é a lógica do “aproveite enquanto dura”.

Diante desse cenário, restam duas opções:

  1. Viver em oposição a essa cultura dominante, resistindo ao hedonismo reinante;

  2. Aderir a esse modo de vida, ignorando as implicações futuras.

A escolha, no entanto, é complexa. Numa sociedade em que quase ninguém se importa, quem decide nadar contra a corrente torna-se o “patinho feio” em meio à massa conformada e homogênea.


sábado, 21 de junho de 2025

Zé Chico

Zé Chico se aconchegou naquela festa junina que mais parecia um velório disfarçado de arraial. O povo mastigava cachorros-quentes e pedaços de bolo com a alegria de quem cumpre um dever. Uns dançavam uma quadrilha tão automática que pareciam bonecos de corda — e a tal da laranja mecânica, símbolo da brincadeira local, nem sequer existia.

Mas Chico era homem de lenha e faísca. Avistou um sujeito — ou melhor, um paspalho de dar dó — e, sem pensar duas vezes, despejou um copo d’água bem no meio das calças do infeliz, como quem rega terra seca. O pobre coitado ficou com a frente toda encharcada. Antes que o rastro da maldade apontasse pra ele, Zé acusou o careca que estava logo à frente. E como o careca estava, de fato, na frente, havia boas chances de parecer culpado.

O paspalho se virou indignado pro careca. O careca, por sua vez, se voltou furioso pra Zé Chico. E ali se formou a confusão: dedo no rosto, voz alterada e xingamento voando como milho estourando na panela.

— Careca mentiroso! — gritava Zé, com ar de indignado profissional.
— Moleque safado! — berrava Ronaldo, o careca, correndo atrás dele com o punho cerrado.

Enquanto isso, o paspalho, todo molhado, parecia cada vez mais convencido de que havia se urinado e já ameaçava partir pra cima dos dois.

Zé Totico

 

CENA 1 — O CASAMENTO DO SEU CHICO

Hoje é dia de festa na vila. Seu Chico Padeiro, velho conhecido, homem trabalhador e meio turrão, vai se casar com a jovem Rita — moça bonita, mas metida que só ela. A vila inteira está reunida na igrejinha. Tem música, gente bem vestida, e claro… muita fofoca.

Você, Zé Totico, está ali encostado num poste, comendo um pastel, observando tudo. Já percebeu que:

  • A ex do Seu Chico está sentada lá no fundo, remoendo ódio.

  • O padre parece ter tomado umas antes da missa.

  • E o primo da noiva, que veio da capital, está tirando onda com todo mundo da vila, dizendo que "aqui é tudo atraso de vida".

A confusão está pronta pra acontecer. Basta um empurrãozinho.

CENA 2 — O COMEÇO DO RUMOR

Você se aproxima de Dona Carminha, velha fofoqueira oficial da vila, que já disse uma vez que tinha "dom pra saber das coisas". Sabe que se plantar ali, a notícia se espalha mais rápido que fogo em palha seca.

Você chega perto, disfarçado de curioso:

— Dona Carminha... a senhora reparou que a Rita tá com um colar novo? Dizem que foi o primo da capital que deu... e não foi só colar não...

Ela arregala os olhos como uma coruja vendo fantasma.

— Hein? Como assim, meu filho? Mas o casamento é HOJE!

Você não responde. Só levanta as sobrancelhas, dá de ombros e diz:

— Só reparei, só reparei...

Dona Carminha já levanta e vai cochichar com a comadre Lurdes. E Lurdes, que tem voz de taquara rachada, cochicha gritando, como sempre.

— VOCÊ TÁ ME DIZENDO QUE A RITA TÁ COM O PRIMO DA CAPITAL?

Todo mundo em volta já vira o rosto.

A fofoca já tá nos bancos da frente da igreja, e o padre começa a gaguejar ao ver a Rita sussurrando com o primo.

Seu Chico, coitado, já olha torto pra trás enquanto o sanfoneiro engasga no "Ave Maria".

Você, Zé Totico, se afasta devagar, mastigando o último pedaço do pastel, fingindo que nem sabe o que está acontecendo.

Mas aí...

— Ô Zé Totico... — diz uma voz por trás de você.
É Dona Zuleide, velha amiga da sua mãe. — Você viu o que tá acontecendo? Será que é verdade mesmo?

Ela te encara com aquele olhar de quem sonda alma.

Ahhh... Zé Totico, você é um artista.

Você arregala os olhos como se tivesse ouvido a história agora.

— Oxente, Dona Zuleide! Tá me dizendo isso? A Rita?! Com o primo da capital? Num me diga... Mas sabe que agora que a senhora falou, eu reparei sim que ele passou a mão nas costas dela quando chegou... e ela riu meio sem graça... coisa esquisita...

Você abaixa o tom da voz, olha pros lados, e completa:

— Mas é melhor não espalhar isso, viu? Vai que é só impressão...

Claro que é tarde demais. Dona Zuleide já se virou de lado, puxou o braço do irmão do noivo, e cochichou no ouvido dele com a delicadeza de um trovão em céu limpo.

CENA 3 — O CLIMA PESA

Lá na frente, o padre já ergue o braço pra abençoar o casal. Mas Seu Chico tá tenso. O primo da capital agora está encostado na parede, de braços cruzados, e Rita olha em volta, desconfiada — parece sentir que tem algo errado no ar.

Você vê:

  • O sanfoneiro dá uma nota errada.

  • A ex do Chico sorri pela primeira vez no dia.

  • E o padre, já com o cálice na mão, deixa escapar:

— "Aceitas esta mulher como sua legítima esposa, mesmo que ela tenha um passado… ééé... glorioso?"

O silêncio pesa.

De repente, Seu Chico olha direto pro primo da capital, depois pra Rita. O clima esquenta. Ele larga o buquê no chão.

— Rita... você tem algo pra me dizer?

A plateia faz um "oooooooh".

Zé Totico, você não joga água no fogo... você joga óleo de dendê, e ainda sopra pra espalhar bem.

Você se aproxima do compadre Genival, que é meio surdo, mas adora gritar quando acha que entendeu alguma coisa. E diz baixinho, com cara de quem não queria dizer:

— Rapaz... ouvi dizer que o primo da capital nem é primo de verdade. Dizem que ele já foi visto com Rita antes mesmo dela conhecer o Chico. Vai saber...

Compadre Genival franze a testa, leva a mão ao queixo, e pergunta alto — alto demais:

— ENTÃO O PRIMO NÃO É PRIMO?

Silêncio. A igreja para. As velhas se benzem. O padre derrama o vinho.

Seu Chico dá um passo pra trás. A Rita fecha a cara. O primo da capital arqueia a sobrancelha como se não entendesse, mas já começa a coçar o colarinho.

— Rita, quem é esse homem afinal?, diz Seu Chico.

Ela hesita. O primo tenta intervir:

— Calma aí, gente. Isso tá cheirando a fofoca…

E então, como nas grandes comédias de antigamente, um empurra o outro, o padre grita "Não na igreja!", e começa uma briga generalizada, com tia jogando flor no primo, sanfoneiro se protegendo com o acordeão, e a ex do Chico filmando tudo com um celular velho.

CENA FINAL — O MESTRE DESAPARECE

Você, Zé Totico, já está do lado de fora, sentado no parapeito da venda do Zeca, com outro pastel na mão e rindo com a alma.

— E ninguém nunca vai saber quem foi que começou...

PARABÉNS, ZÉ TOTICO!

Você criou um verdadeiro causo de vila, digno de ser contado por décadas nas festas juninas e jogado na roda junto com os clássicos do interior.

E melhor: ninguém nem sonha que foi você.

domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e a Dança do Gerente Possuído

 Na sexta-feira da apresentação mensal, todos estavam tensos. O ar-condicionado soprava aquele frio de consultório de dentista e as cadeiras de rodinha rangiam enquanto os chefes deslizavam de um lado pro outro, fingindo que estavam focados.

Entre todos ali, ninguém superava em antipatia o gerente Hermínio — um homem que falava como se estivesse sempre decepcionado com o mundo e com o gosto musical dos colegas.

Hermínio era daqueles que criticavam quem esquentava peixe no micro-ondas e usava a expressão “isso não é postura corporativa” com frequência assustadora. Mas ninguém podia fazer nada: era competente, intocável, e... insuportável.

Até que Adalberto, sempre ele, descobriu um antigo manuscrito tibetano sobre a “possessão consciente” — uma técnica proibida, esquecida, e ligeiramente mal traduzida. Em três noites de estudo e um chá de boldo místico, Adalberto aprendeu a dominar momentaneamente o corpo de outro ser humano.

Quem seria sua cobaia? Óbvio: Hermínio.

E assim, no auge da reunião, quando Hermínio começou a falar:

— Estamos num momento sensível do trimestre. Precisamos rever os indicadores de...

PAF.
Adalberto ativa a técnica em silêncio, olhos semicerrados, escondido atrás de uma pilha de pastas do financeiro.

Hermínio congela. Seus olhos piscam fora de ritmo. De repente...

“Dum tchic tchic dum tchic tchic” — começa a murmurar em ritmo tribal, enquanto se levanta e faz um gesto com os braços como se estivesse puxando cordas invisíveis do teto.

A equipe paralisa.

Hermínio, ainda sob o controle de Adalberto, faz um giro de corpo, levanta uma perna como um flamingo e solta um berro confiante:

“Alface é só um repolho covarde!”

Silêncio absoluto.

Cláudia, a fofoqueira oficial, já está com o celular gravando em posição vertical. Guto segura o riso. Neide derruba a tampa do copo térmico.

Hermínio então se ajoelha, coloca as mãos em concha na frente do rosto e encena um balé contemporâneo com direito a sussurros poéticos:

— “Eu sou a folha que caiu da ata de reunião... danço nu na planilha da vida!”

Aí, de repente, ele tira os sapatos, sobe na mesa da sala de reuniões e começa a marchar em círculos gritando:

“Eu declaro este escritório como território do povo do rebolado sagrado!”

Foi nesse momento que Adalberto, satisfeito, soltou o controle.

Hermínio parou. Olhou ao redor. Viu-se em cima da mesa, descalço, com a gravata amarrada na testa. E então, com toda a autoridade possível, disse:

— ...Continuando a apresentação...
Indicador número dois: produtividade.

Mas ninguém ouviu. Porque todos já estavam no grupo da empresa, vendo e comentando o vídeo com o título:

"Hermínio doido: o surgimento do Pajé Corporativo"

E Adalberto?
Sentado no canto, com sua maçã de sempre, pensava em voz baixa:

— Nada como um bom balé administrativo pra lembrar que até gerente tem perna.

Adalberto e o Peido Imortalizado

 Na empresa G.R. Soluções Logísticas, todos sabiam que zombar de Adalberto era o mesmo que cutucar a parede com garfo esperando resposta. Mas o estagiário Jefferson, recém-chegado, não sabia disso.

Durante uma pausa para o café, entre risadas e bolachas de aveia, soltou:
— Adalberto? Esse aí só fala sozinho. Aposto que se olhar pro espelho, perde na discussão.

A piadinha ecoou. Gargalhadas. Uma ou outra cuspida de café.
Adalberto, sentado no canto, fingiu não ouvir. Mas seus olhos brilharam daquele jeito que só brilham quando uma travessura já está sendo arquitetada.

Naquela tarde, a empresa silenciou de repente.

O tempo parou. Literalmente.
Corações congelados, relógios imóveis, moscas paradas no ar. Só Adalberto caminhava entre os cubículos como um maestro do caos.

Com um spray vermelho fosforescente em mãos e uma sacola plástica misteriosa na outra, entrou na sala de Jefferson. Observou com carinho a parede branca atrás da cadeira giratória. E começou, com letras bem redondas, a grafitar:

"EU QUE PEIDEI"

No último "i", caprichou: a bolinha foi desenhada em formato de feijão.
Depois, com precisão cirúrgica, limpou as digitais do spray, encaixou-o na mão paralisada de Jefferson e posicionou seu braço como quem termina de assinar uma obra-prima.

Mas faltava o toque especial.

Adalberto abriu a sacola. De lá, saíram três hamsters, uma galinha e, inexplicavelmente, uma cabra anã com expressão culpada.
Soltou os bichos sobre os papéis importantes de Jefferson, deixando rastros — e odores — inconfundíveis.

E então... o tempo voltou.

Bem nesse instante, Neide, a supervisora severa, estava subindo a escada.
Abriu a porta e viu Jefferson, de olhos arregalados, com uma lata de spray na mão, uma parede escrita "EU QUE PEIDEI", e atrás dele, um hamster saltando alegremente sobre um teclado coberto de cocô.

Silêncio mortal.

— JEFFERSON?! — berrou Neide.
— Eu... eu... isso não é... foi... não fui eu!

— E os animais? O que essa cabra tá fazendo aqui?

A cabra respondeu com um berro que pareceu dizer "injustiça!" e mastigou o rodapé da mesa.

Logo a sala estava cheia. Cláudia tirava fotos. Guto gravava vídeos. A notícia correu pelos corredores:

"Jefferson fez arte na parede e cagada na sala."

Jefferson tentou argumentar:
— Mas eu tava no café!
— Tava com o spray na mão, filho! — disse Neide, agora chamando o RH.

No grupo da empresa, a foto do muro viralizou. Abaixo da escrita, alguém editou:

"Coragem é assumir. Jefferson: o herói flatulento que o Brasil não pediu."

Enquanto isso, Adalberto, invisível atrás da impressora, comia uma maçã e pensava:
— Uma travessura por dia mantém a chatice afastada.

E assim, Jefferson virou lenda.
Não pelo trabalho. Não pelos relatórios.
Mas por um peido que nunca foi dele...
E que, na parede, segue eterno.

Adalberto e o Home Office de Ednilson

 Na manhã de terça, Ednilson chegou à empresa decidido a provar seu valor. A gerente havia autorizado que ele fizesse “home office interno” por uma semana — usar o computador da sala de reuniões pra adiantar os relatórios e responder e-mails com mais tranquilidade.

— Aqui ninguém me atrapalha — disse, ajeitando os fones. — Só café, foco e produtividade.

Mas Adalberto... bem, Adalberto achava o tédio uma ofensa pessoal. Invisível num canto da sala, sorvia um suco de maracujá (só pra provocar) e decidiu que seria um ótimo dia para mexer no Word, no e-mail e... nos grupos de WhatsApp da empresa.

Ednilson, concentrado no relatório "Tendências do Mercado Agroexportador 2025", apertou sem querer Ctrl+V numa mensagem destinada a toda a equipe de finanças.

Assunto: Relatório Parcial — por favor revisar
Anexo:
📄 "Reflexões sobre a luta de sumô para pessoas magras: espaço, identidade e o direito ao kimono"
Mensagem:

"Pessoal, segue o material. Preciso de um retorno urgente. O sumô é mais do que uma arte, é um grito dos ossudos. Abs!"

Silêncio.

Dois minutos depois, a notificação:
📩 Reinaldo — Gerente Financeiro:

“Ednilson… isso é uma metáfora para o balanço trimestral ou você está passando por algo que deveríamos saber?”

Adalberto, ainda invisível, já ria com os ombros.

Mas ele foi além.

Enquanto Ednilson abria uma aba pra assistir discretamente a uma videoaula sobre tabelas dinâmicas, Adalberto ativou, sem ele perceber, o compartilhamento de tela no grupo do Teams com toda a regional Sul.

Durante 14 segundos preciosos (registrados para a eternidade), todos assistiram:

  • Uma aba chamada “Clube da Toalha 🧖‍♂️ – SPA e sauna entre homens sensíveis”

  • Outra com um formulário chamado “Por que devemos ser a favor dos incels?”

  • E um rascunho de PowerPoint com o título: “A semiótica da cueca bege: padrões visuais ignorados pela mídia”

📲 Cláudia:

“Ednilson... tudo bem aí?”

📲 Zé Mauro:

“Cara... eu apoio a cueca bege, mas incel é demais até pra mim 😳”

📲 Guto:

“Que saudade da época que o Ednilson só falava de Excel”

Ednilson surtou.

— QUEM FEZ ISSO? O QUE É “CLUBE DA TOALHA”?! EU NEM TENHO SAUNA!

Tentou puxar o histórico. Tudo sumiu. Os arquivos, as abas... até o PowerPoint cuecalógico foi apagado.

Adalberto, do outro lado da sala, soprava levemente na nuca dele — só pra ver o pânico aumentar.

Horas depois, o gerente regional chamou Ednilson:

— Olha... ninguém aqui tem preconceito com nada. Só precisamos saber se isso foi pessoal, profissional... ou espiritual.

Ednilson apenas respondeu:

— Foi... inexplicável.

Enquanto isso, uma nova aba foi aberta no navegador. Ednilson não viu. Só piscava no cantinho:

📁 Clube de Leitura dos Carecas Pensantes – edições mensais

E lá no servidor, uma pasta foi criada por alguém que ninguém conhecia, chamada:

📂 "Sementes do caos – arquivos A."

Adalberto e a Aula da Selva

 Era uma terça-feira nublada, daquelas que já começam estranhas: pássaros voando baixo, internet caindo em todas as salas, e a coordenadora reclamando que o micro-ondas da sala dos professores “pisca quando alguém espirra”.

Adalberto estava com saudades do caos. E mais ainda, daqueles pestinhas do 9º ano — os campeões em bagunça, cuspe no bebedouro, apelidos cruéis e "tá pegando fogo" nos grupos de WhatsApp da escola.

Decidiu então que era dia de aprendizado. Mas não o tipo que se ensina com giz e lousa.

Com um estalar de dedos invisível, o tempo parou.

Alunos, professores, carros, vento, tudo ficou imóvel. Menos ele.

Pela cidade silenciosa, Adalberto passou de casa em casa, pegando um por um: Rafa com o celular na mão, Bia colocando chiclete na maçaneta do quarto, Miguel comendo salgadinho no café da manhã. Cada um foi levado, no maior estilo “mágica de feira”, para a escola já vazia — o velho prédio de concreto cinza, agora silencioso e assustador.

Na sala do 9º ano, um a um foi colocado sentado na carteira, todos paralisados em posições diversas, até que... o tempo voltou.

— Ué??? — exclamou Tiago, olhando em volta. — Como vim parar aqui?

— Eu tava em casa! — gritou Bia. — Tinha aula hoje?

— Isso é trote? — disse Miguel, olhando pela janela escura. — Cadê todo mundo?

Foi então que ouviram um som: grrrrhhhh.

— Vocês ouviram isso? — perguntou Rafa.

Na escada do prédio principal, uma sombra enorme apareceu. Não era o inspetor nem o diretor. Era... um URSO.
De verdade. Gigante. Peludo. E babando.

— CORRE! — gritaram em uníssono, disparando pelos corredores.

Mas não havia saída. No pátio, duas girafas pastavam tranquilamente nos canteiros. No laboratório, um chimpanzé comia as pastilhas de álcool em gel. No banheiro feminino, um flamingo discutia com o reflexo no espelho.

— ISSO É UM SONHO! — chorava Tiago.
— OU UM FILME DA SESSÃO DA TARDE!!! — gritava Bia, tentando subir numa estante.
— AAAAAH O MACACO PEGOU MINHA MOCHILA! — Miguel urrava em desespero.

Adalberto, invisível, assistia de camarote. Entrava nas salas, girava cadeiras, abria armários com esqueletos falsos, soltava barulhos de tigre no sistema de som da escola e deixava marcas de patas falsas pelo chão.

O pânico era absoluto.

Até que, do nada... tudo congelou de novo. Animais, crianças, folhas ao vento, todos imóveis.

Adalberto recolheu seus “convidados especiais” — girafa por girafa, urso por urso, chimpanzé e flamingo — e os devolveu sorrateiramente ao zoológico. Ainda teve o cuidado de deixar um peixe-palhaço no aquário da diretora, por pura ironia.

Quando o tempo voltou, os alunos estavam... de volta às suas casas. No sofá, no banheiro, no quarto. Desnorteados.

Na manhã seguinte, a escola recebeu dezenas de mensagens de pais:

“Meu filho acordou no chuveiro gritando ‘o urso vai me pegar!’”

“Bia não quer mais ver flamingos nem no papel de parede.”

“Miguel está jurando que foi perseguido por uma girafa no pátio.”

E no mural da escola, alguém colou — sem ninguém ver — uma cartolina com letras coloridas, onde se lia:

“Educar não é domar. É deixar que o medo ensine por um tempo.”
— A.”

Adalberto e a Noite da Escola Trancada

 Sexta-feira, final de tarde.

A algazarra do 9º ano já ecoava pelos corredores como um trovão: papel voando, gritaria, gente subindo no corrimão, outro tentando acender isqueiro escondido com bala de hortelã.

Adalberto, invisível e de braços cruzados, observava com aquele olhar maroto de quem planeja.
E então, clac, virou a chave. Literalmente. Trancou o portão principal, as portas internas, as saídas de emergência, e guardou o molho de chaves dentro de um estojo de canetinha no fundo do armário de ciências.

A escola seguiu na balbúrdia até que, por volta das 18h, um aluno tentou sair:

— Ué... trancaram o portão?

— ISSO NÃO É HORA DE BRINCADEIRA, ABRE A PORTA! — gritou Bia.

Mas a porta não se mexia. Nem com empurrão, nem com chaves reservas (que também tinham sumido), nem com os berros de "É o Miguel que sempre faz isso!". A noite caiu.

Lá pelas 19h30, começaram os celulares a tocar. Primeiro, os toques ignorados. Depois, as mensagens começaram:

Pai do Rafa: “Alguém viu o Rafa? Já era pra estar em casa.”

Mãe do Miguel: “Aqui nada. Miguel falou que ia direto. Você não cuida do seu, quer que eu cuide também?”

Pai do Tiago: “Não é meu filho que espalha cola nas cadeiras. Culpa é do seu mimado aí!”

Mãe da Bia: “Não vem culpar minha filha, que educada ela é! Quem vive reclamando dos professores é o tal do Miguel.”

E então, a avalanche começou.

Meia hora depois, os pais estavam aglomerados no portão da escola, gritando entre si. Uma mãe chegou com escada, um pai com alicate de pressão. Outro pai queria chamar a imprensa.

— SEU FILHO É UM VADIO DESOBEDIENTE, DÁ MAU EXEMPLO!

— AH, VAI TOMAR CONTA DA SUA VIDA! AQUI É TODO MUNDO PRESO POR CULPA DOS SEUS ANJINHOS!

Enquanto isso, dentro da escola, os alunos em completo desespero.

— Gente, isso aqui vai sair no G1 — sussurrou Tiago.
— Alguém aqui tem comida? — perguntou Bia, tremendo.
— Achei um pão de queijo debaixo do bebedouro. Meio mole. — disse Miguel.
— Aceita, é melhor que nada. — responderam em coro.

Adalberto, naturalmente, se divertia. Invisível, passava entre pais em pé de guerra e alunos meio chorando, meio rindo, meio culpando uns aos outros.

A cereja do bolo foi quando um pai começou a escalar o muro com a escada da faxina emprestada do zelador. Chegou no topo e caiu direto numa moita. A ambulância foi chamada.

Já era quase meia-noite quando o vigia, que finalmente acordou do cochilo na guarita, disse:

— Ué, que confusão é essa? Tem gente trancada?

E abriu uma porta lateral, esquecida há anos, que estava… destrancada.

Os alunos saíram cabisbaixos, abraçados às mochilas, suando de nervoso. Os pais gritavam, abraçavam, empurravam, acusavam e juravam processar a escola, os colegas, o sistema, a prefeitura e até um cachorro que latiu na rua.

Na manhã seguinte, uma professora encontrou o molho de chaves dentro de um estojo cheio de canetinhas secas.
Ninguém sabia como foi parar lá.

Na última carteira da sala de ciências, um bilhete dobrado, escrito à mão com letra impecável, dizia:

“Toda revolta começa com desordem. Toda desordem começa com filhos criados com wi-fi.

De nada.
— A.”

Adalberto, claro, tomava um café na padaria da esquina e ria enquanto lia a notícia:
“Pais em confusão generalizada após sumiço de alunos em escola trancada misteriosamente.”

Adalberto e o Exame do Palhaço

 Era uma manhã nublada quando Zé Mauro, o palhaço mais mal-afamado da cidade, recebeu no celular um e-mail com o timbre impecável do Hospital Santa Salvação, remetente: notificacoes@santasalvacao.org.

Assunto:
"Solicitação Urgente de Exames Proctológicos - Zé Mauro da Silva"

No corpo do texto, entre termos médicos assustadores e uma frieza administrativa típica de hospitais, lia-se:

“Prezado Sr. Mauro, em virtude de relatos e sintomas associados a ingestão exagerada de pimenta malagueta, cocadas cristalizadas e bombons de pimenta dedo-de-moça, solicitamos seu comparecimento ao setor 3B para realização de exames proctológicos, incluindo colonoscopia e toque retal com dupla conferência.

Caso o senhor se recuse, será registrado em prontuário que houve negligência voluntária diante de possível quadro grave de hemorroida avançada tipo 3B inflamada.”

Zé Mauro arregalou os olhos.

— EU?! HEMORRÓIDA?! MALAGUETA?! — berrou para o gato, que dormia no sofá.

Num rompante, botou a roupa de palhaço (única roupa limpa no momento), entrou num ônibus, desceu na frente do hospital e invadiu a recepção como um furacão de maquiagem derretida e indignação.

— EU QUERO FALAR COM O CHEFE DOS MÉDICOS! EU NÃO TENHO HEMORRÓIDA!
EU SOU UM HOMEM LIMPO! SÓ COMI UM KIBE APIMENTADO EM 2009!

A recepcionista travou o teclado no susto.

— Senhor... o senhor tem agendamento?

— AGENDAMENTO?! VOCÊS É QUE TÃO ME AGENDANDO PRA MEXER NO MEU TRÁS SEM MINHA PERMISSÃO! — e bateu no balcão como se estivesse num tribunal popular.

— Mas... senhor Zé Mauro... não temos nenhum e-mail vindo do nosso sistema.

— TÁ AQUI Ó! — gritou, mostrando o celular com a mensagem, sem notar que a fonte usada era Comic Sans e o rodapé dizia:
"Hospital Santa Salvação - Confiança que escorre"

Segundos depois, o segurança chegou, duas enfermeiras vieram ver o que estava acontecendo, e uma médica jovem tentou acalmar:

— Senhor, não há nenhum pedido desse tipo, e nem usamos esse endereço eletrônico. Isso parece forjado.

Zé Mauro empalideceu, depois corou, depois ficou azul.

— FOI ELE. FOI AQUELE!
O DEMÔNIO DE GRAVATA: ADALBERTO!

No exato momento, Adalberto caminhava calmamente pela praça em frente ao hospital, chupando um drops de menta, com o mesmo ar de quem assiste uma boa novela.

Dentro do hospital, o caos se instalou:

– Duas pacientes gravaram o surto e já postavam no TikTok com a hashtag #PalhaçoDoToque.
– A segurança discutia se ligava pra psiquiatria ou pra TI.
– Zé Mauro exigia um exame ali mesmo, na frente de todos, só “pra provar que não tem nada inflamado!”

No final, após 40 minutos de histeria, gritos e discussões sobre cocada apimentada, o hospital imprimiu um atestado negando qualquer procedimento solicitado ou suspeita de hemorroida, só para ele ir embora.

Na saída, ainda transtornado, Zé Mauro viu um bilhete preso em seu para-brisa:

Evite pimentas e e-mails falsos.
Cuide-se, Zé.
— A.”

Ninguém viu quem deixou o bilhete.

Mas na recepção do hospital, um rapaz alto, de gravata azul, riu baixinho enquanto fingia esperar atendimento.

Seu nome no crachá: Adalberto – TI Temporário.

Adalberto e o Palhaço da Verdade Congelada

 O dia já se arrastava pelas calçadas quando doutor Otacílio cruzou a porta da empresa. Terno suado, pasta surrada, ego polido.

Foi nesse momento que Adalberto acionou o frasco, agora em versão roll-on, com discreto aroma de eucalipto mentolado.
E o tempo, obediente como bom relógio quebrado, parou.

Carros imóveis.
Folhas suspensas no ar.
Otacílio, com um pé ainda no ar, congelado na saída como se hesitasse entre ser advogado ou personagem de boato.

Adalberto, sereno, entrou em seu Fiat Prêmio 1989, virou a chave, e dirigiu pelas ruas vazias até um ponto específico: o posto de gasolina desativado onde se reuniam figuras errantes da cidade.

Lá, entre placas tortas e pichações com erros de ortografia, estava Zé Mauro, em seu traje de palhaço Bozo — rosto pintado, peruca torta e uma Fanta quente na mão.

— Vem comigo — disse Adalberto, mesmo sabendo que Zé Mauro já estava parado, imóvel, como todo o mundo fora ele.

Porque era assim: só Adalberto se movia no tempo parado.
O resto virava boneco de cera.

Então, com um pouco de esforço, ele pegou Zé Mauro no colo, o arrumou no banco do passageiro como quem posiciona uma estátua, voltou para a empresa, abriu a porta com o crachá de Cláudia (que deixara pendurado num gancho) e posicionou Bozo bem ao lado do advogado congelado, que ainda saía da porta.

Era uma cena linda, na verdade.
O advogado sério e o palhaço sorrindo.
Pareciam capa de romance alternativo.

Adalberto pegou o celular de Otacílio, usando luvas de vinil, e clicou em selfie.
Tirou umas três, testou ângulos.
Na escolhida, o Bozo fazia “joinha” e Otacílio parecia sorrir sutilmente (por puro acaso do congelamento muscular).

A legenda?

"Cliente amando outro homem, mas me pediu sigilo.
Tô aqui protegendo os direitos das pessoas amarem em segredo.
Esse é meu amigo Bozo."


Postou no stories, printou e mandou número privado de Cláudia direto do WhatsApp do advogado.
Legenda no print:
"Ops, saiu no perfil errado kkkk"

Desfeita a obra-prima, Adalberto voltou ao carro com Bozo estático, deixou-o no mesmo lugar do posto, arrumadinho, com a Fanta ainda na mão, e voltou para seu canto.
Apertou novamente o frasco.

O tempo voltou.
Pássaros voaram.
Porta automática abriu.
Doutor Otacílio desceu os degraus sem saber que agora tinha uma nova identidade digital e um novo melhor amigo palhaço.

Cláudia foi a primeira a ver a notificação.

— MEU DEUS, ELE POSTOU ISSO AQUI?! — gritou, já repassando o print para três grupos diferentes.

Nos corredores, começaram os burburinhos.
Guto soltou um “🤡”,
Ednilson se benzeu sem entender por quê.
Dona Neide mandou um áudio dizendo:
— Isso é assunto pro jurídico...

Otacílio, ao checar o próprio celular, gritou como quem descobre que virou meme:

— MAS QUE… MAS QUE PALHAÇADA É ESSA?!
E dessa vez, não era metáfora.

No fundo da sala, Adalberto ajustava a gravata com ar tranquilo.

Afinal, só há uma coisa mais poderosa que o tempo:

A fofoca bem planejada.

Adalberto e o Advogado da Verdade

 Após o bilhete de amor impresso misteriosamente do seu terminal, Ednilson entrou em colapso moderado.

Não o tipo que se joga no chão e grita —
Mas o tipo que passa a madrugada lendo fóruns sobre segurança digital, colando post-its no monitor com senhas de 30 caracteres, e ligando para a mãe dizendo:

— Mãe, se algo acontecer comigo, o problema tá na impressora da empresa.

No dia seguinte, ele chegou na Soluções Integradas Alfa com terno mal passado e um homem baixo e robusto a tiracolo.

— Esse aqui é o doutor Otacílio. Especialista em crimes digitais e danos morais.
— Sou perito autodidata, técnico em redes e formado em Direito por correspondência. — completou Otacílio, estendendo a mão com uma pasta tão gasta que parecia datar da época das LAN houses.

Adalberto, ao ver a dupla entrar, quase engasgou com sua barrinha de cereal light.
Mas manteve o semblante impassível.
Como se dissesse:

"Ora, ora, temos um cavaleiro da justiça entre nós..."

A cena que se seguiu foi digna de auditório de TV vespertina:
Otacílio exigindo acesso ao sistema da impressora,
pedindo logs de IP,
perguntando quem mais usava o computador,
falando em “rastros digitais” e “vírus que imprimem sozinhos”.

Cláudia filmou parte da conversa escondida.
Dona Neide mantinha a paciência de quem medita com incenso.

— Mas, doutor… o senhor quer dizer que alguém invadiu o sistema pra imprimir um bilhete de amor?
— Exatamente, minha senhora. E não se surpreenda se o próximo passo for usar o sistema para fazer compras ou mandar mensagens comprometedoras.

Adalberto, fingindo atender um cliente por e-mail, riu baixinho.

E então veio o ponto alto:

Otacílio entregou uma notificação extrajudicial para ser anexada à ata da empresa, exigindo que:

  1. O nome de Ednilson fosse oficialmente isentado da autoria do bilhete.

  2. Que todos os envolvidos no setor tivessem senhas trocadas.

  3. Que a empresa providenciasse antivírus premium para todos os terminais.

  4. E que fosse feito um comunicado interno restaurando a honra do funcionário injustamente acusado.

Guto murmurou:
— Ele acha que a gente é a NASA.

Dona Neide respirou fundo e respondeu:

— Tá bom. Vamos conversar com o jurídico da empresa e ver o que pode ser feito.
— Ah, mais uma coisa — disse Otacílio, levantando o dedo —. Também recomendaria desligar a Cláudia dos grupos de WhatsApp.

Cláudia gritou da copa:
— EU OUVI!

Adalberto, nesse momento, fingia espirrar.
Mas era só pra disfarçar o riso.

Mais tarde, no fim do expediente, Otacílio foi embora deixando seu cartão com a frase:
"Justiça começa com J... de Jeito."

E Ednilson, aliviado, sentiu-se limpo.
Pelo menos até abrir o armário e encontrar um novo bilhete:

"Nunca vi alguém brigar tanto pra esconder o que sente. Mas tudo bem. Continuo aqui, seu admirador... do RH."

Letra impressa.
Fonte Arial 12.
E o perfume discreto da confusão, que Adalberto espalhava como quem borrifa lavanda num travesseiro antes de dormir.