domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e o Beijo Impossível

 O relógio marcava 12h47 no Soluções Integradas Alfa. No segundo andar, a copa corporativa era território neutro durante o almoço. O micro-ondas apitava como uma sirene triste e o cheiro de lasanha congelada pairava no ar feito promessa de gastrite.

Ali estavam Guto e Ednilson — dois colegas de setor, amigos de longa data e representantes do mais clássico estereótipo hétero de empresa:
– falavam alto,
– zombavam dos outros,
– chamavam qualquer cuidado estético de “frescura”.

Adalberto, do canto da escada, observava. Não por julgamento. Por oportunidade.

E ela chegou.
O frasco estava no bolso desde cedo.
O plano, simples.
O efeito, devastador.

Adalberto girou a tampa.
O tempo parou.

O mundo virou vitrine de loja: tudo imóvel, sem som, sem vida.
O vapor do macarrão parou no ar.
A colher caiu sem cair.
Até o ponteiro do relógio ficou congelado, quase ofendido.

Com o mesmo cuidado de quem arruma uma vitrine, Adalberto foi até os dois.
Inclinou os rostos.
Puxou o pescoço de um, ajeitou o queixo do outro.
Encaixou os lábios.
O toque era leve, falso, simulado, mas convincente o bastante.

Foto.

Depois, tirou o celular da mochila de um deles e enviou, no grupo de trabalho “Equipe Alfa – União e Foco”:

“Que esse momento nunca acabe ❤️”

Com a imagem anexada.

E então, com o frasco já na mão, ele ouviu um barulho sutil:

passos.

Na escada.

Era Cláudia.
A funcionária de RH, fofoqueira profissional, olhos treinados como radar de novela mexicana.
Subia com pressa, café numa mão e celular na outra, quando Adalberto girou a tampa.

O tempo voltou.

PLIM.

E Cláudia, no topo da escada, viu.

Os dois homens ainda próximos. A atmosfera confusa.
Guto afastando o rosto, Ednilson arregalando os olhos.
Ambos pareciam ter acordado de um transe.

Cláudia arregalou os olhos de um jeito que, se fosse desenho animado, teria voado para trás.

EITA.
MEU PAI ETERNO.

Ela desceu correndo e, sem pensar duas vezes, gritou no corredor:
TÁ ROLANDO BEIJO NA COPA. ENTRE GUTO E EDNILSON! NÃO É BRINCADEIRA, EU VI! E TÁ NO GRUPO!

A mensagem já circulava.
Os celulares apitavam como cigarras.
Gente ria. Gente torcia o nariz.
E Guto tentava apagar a mensagem do grupo, suando como quem fez dívida com agiota.

— EU NÃO MANDEI ISSO!
— MAS TÁ DO SEU NÚMERO, GUTO! — alguém respondeu.

Ednilson só murmurava:
— Isso é montagem, é montagem... não sei o que tá acontecendo...

Adalberto?
Sentado na copa, comendo uma barra de cereal light e analisando o rótulo, como se o escândalo ao redor fosse parte de um documentário sobre pássaros migratórios.

Cláudia não deixou barato:
— Eu sempre achei esses dois... intensos demais. A gente percebe, a gente percebe!

O chefe chegou, a confusão aumentou, alguém invocou “direitos trabalhistas” e até sugeriram uma palestra sobre diversidade (ironicamente organizada por Ednilson).

Mas nada tirava o brilho daquele momento:
a aparição de Cláudia no topo da escada,
o clique de uma foto que nunca aconteceu,
e a risada abafada de Adalberto ao ver o mundo tentando entender o que só ele sabia.

O tempo é relativo.
Mas a vergonha... essa é eterna.


Adalberto e a Reunião Inexplicável


Dois dias após o episódio do beijo-surpresa e da aparição mística de Cláudia na escada, a empresa Soluções Integradas Alfa ainda respirava o perfume de escândalo misturado com café requentado.

Os memes circulavam nos bastidores.
As piadas eram sussurradas no corredor.
E o grupo “Equipe Alfa – União e Foco” estava tão silencioso quanto uma igreja às quatro da manhã.

Foi então que, na manhã de quinta-feira, dona Neide, gerente geral e dona da empresa, chamou os dois envolvidos para uma conversa.
Tom de voz calmo.
Olhar firme.
E aquele blazer florido que ela usava só em ocasiões delicadas.

— Ednilson. Guto. Na minha sala. Agora.

Eles se entreolharam com o olhar de dois náufragos vendo a tempestade chegar.

Sentaram-se à frente da mesa de vidro.
Dona Neide cruzou as mãos. Suspirou.

— Olha... eu não vou ser careta aqui. Cada um tem sua vida. Seus gostos. Seus momentos. Mas aqui é uma empresa, um ambiente de trabalho.

Os dois arregalaram os olhos.

— Como assim? — disse Guto.
— Eu não sei o que a senhora quer dizer… — completou Ednilson.

Ela puxou o celular.
Colocou a tela virada pra eles.

A foto.

A famosa.
A polêmica.
A indecifrável.

Os dois rostos colados.
A copa ao fundo.
E o vapor do macarrão formando uma aura quase divina atrás.

— Não é o caso de demissão. — disse Neide, com voz maternal — Mas se vocês têm algo um com o outro, só peço que respeitem o ambiente profissional. Não é lugar pra esse tipo de manifestação.

Guto gesticulou como quem se afoga.

— Dona Neide, eu JURO que isso não aconteceu! Eu não beijei ninguém! Eu nem sei o que é isso!

— Isso é montagem! Montagem! — reforçou Ednilson, quase tropeçando nas palavras.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Então vocês não estão…?

— NÃO! — gritaram os dois, em uníssono, ofegantes, corados, suando mais que café passado.

Ela olhou com uma leve compaixão e disse:

— Olha, se vocês ainda não se assumiram, tudo bem. Eu só peço: conversem. Se organizem. Mas não tragam isso pro grupo da empresa. Tem cliente, tem parceiro vendo aquilo ali… a Cláudia já veio aqui me mostrar três prints. Três!

Silêncio.

Os dois saíram da sala sem entender se estavam sendo punidos ou convidados a um relacionamento oficial.

E no fundo da copa, atrás da porta entreaberta, Adalberto mastigava sua barra de cereal light.
Sem rir.
Sem sorrir.
Apenas com um olhar contemplativo.

Porque não há graça maior do que ver o mundo tentando resolver um problema que nunca existiu
pelo menos, não no tempo deles.

Adalberto e o Reverso do Tempo

 Após semanas testando a fórmula, Adalberto estava mais ousado. Já tinha feito compras grátis, evitado filas de banco, espionado reuniões e até assistido filmes inteiros no cinema sem pagar — saía antes do tempo voltar e ninguém via.

Mas ele começou a perceber pequenos efeitos colaterais.

No início, eram apenas incômodos:
– um zumbido no ouvido,
– formigamento nas mãos,
– uma leve tontura quando reativava o tempo.

Mas logo vieram os sinais mais graves.

Certa manhã, ao congelar o mundo novamente para pegar uma garrafa de uísque importado (edição de colecionador), notou que uma mosca ainda voava.

Ela o encarava.
Sim, encarava.

Não era possível — tudo deveria estar parado.

Assustado, saiu correndo do mercado (com o uísque, claro).
Mas algo estava diferente.

No caminho de volta, passou por um espelho de loja e viu algo impossível:

Seu reflexo estava atrasado.

Ao piscar, o reflexo demorava. Ao sorrir, o reflexo ficava sério.
Era como se ele tivesse deixado partes de si presas no tempo parado.

E o mundo começou a reagir.

Pessoas olhavam para ele com estranheza, mesmo sem saber por quê. Cachorros latiam ao vê-lo. Crianças choravam. O espelho do banheiro não refletia seus olhos de forma exata.

E então, na madrugada de uma segunda-feira, veio o pior:

Ele acordou antes de o tempo acontecer.

O relógio marcava 03h45, mas tudo estava parado. Não por sua fórmula — ele não a havia usado. Era como se agora ele vivesse antes do tempo.

Andava por ruas onde os jornais ainda não tinham chegado, onde os pássaros estavam no ar, mas imóveis, onde nada existia ainda.

Quando o tempo voltava, ele reaparecia em momentos que não lembrava de viver. Pessoas lhe contavam conversas que ele não teve. Apontavam mensagens que ele jamais escreveu.

Adalberto estava se desfazendo no tempo.

Cada vez que usava a fórmula, um pedaço dele ficava no mundo congelado, preso num eco invisível, que talvez risse, talvez chorasse — e talvez estivesse ganhando consciência própria.

Ele tentou parar.
Enterrou o frasco.
Jogou os papéis no fogo.

Mas era tarde.
O tempo já o conhecia.
E agora o tempo queria algo em troca.

Adalberto e o Tempo Suspenso

 Era uma manhã de quarta, dessas que parecem não querer acontecer. O céu estava da cor de papel amarelado e o vento passava como funcionário cansado — sem vontade e sem pressa.

Adalberto, no entanto, estava empolgado.
Depois de noites insones misturando fórmulas, cálculos, bulas vencidas e instruções de brinquedo científico da infância, ele descobriu.

Não a cura do câncer.
Não a viagem interestelar.
Mas algo muito mais útil para alguém como ele:

Um composto que parava o tempo.

Não era coisa de cinema — o tempo parava para todos, exceto para Adalberto. O mundo congelava: pássaros no ar, pisca-piscas parados no vermelho, pessoas com a boca entreaberta no meio da palavra.

E, claro, ele usou o poder com a mesma responsabilidade com que uma criança usa tinta guache numa parede branca.

No primeiro uso, não foi atrás de bancos, cofres, nem do Vaticano.
Ele foi ao supermercado Império dos Alimentos, o mais caro da cidade. Um lugar onde um pedaço de queijo brie custava o salário mínimo em parcelas suaves.

Entrou como quem apenas queria um café e bolacha.
Disfarçou-se com boné, máscara e o olhar vago dos que comparam preço de azeitona.

E então, discretamente, ativou o composto.

O mundo parou.
O som desapareceu. Os ventiladores congelaram no ar. A moça do caixa ficou paralisada com a mão suspensa, segurando um troco.

Adalberto sorriu como quem viu a eternidade e ela estava em promoção.

Começou a encher o carrinho com precisão cirúrgica:
– Queijos importados.
– Vinhos com nomes que ele não sabia pronunciar.
– Salmão norueguês.
– Perfumes franceses.
– Um conjunto de panelas que vinha com uma assinatura da chef do MasterChef.

Ao sair do mercado, empurrou o carrinho até seu carro — um Uno reformado com mais adesivos do que lata.
Guardou tudo.
Voltou.
Recolocou o carrinho no lugar, agora vazio.

E, do lado da sessão de cereais, ativou o retorno do tempo.

— PLIM.

A vida seguiu.
Mas não no supermercado.

Em cinco minutos, a confusão começou.

— Ué, cadê o brie da promoção?
— O senhor da adega disse que viu as prateleiras vazias do nada.
— Sumiu um jogo de panelas!
— Alguém levou 6 perfumes de uma vez?
— Olha aqui nas câmeras...

As gravações mostravam o seguinte:
— produtos sumindo sozinhos.
— o carrinho andando sem ninguém.
— um vinho flutuando e desaparecendo.

Teorias começaram a pipocar:
Fantasma de um antigo açougueiro.
Milagre.
Teste da Globo.
Presença demoníaca ligada à importação de queijos suíços.

O gerente chamou a polícia, que chamou um padre, que chamou um primo que entendia de câmeras.

Adalberto, em casa, cortava o queijo com uma faca nova que nem sabia que vinha com a tábua. Serviu-se uma taça e ligou a TV: estava passando a reportagem ao vivo.

“Mistério no Império dos Alimentos. Produtos somem do nada e câmeras registram o impossível...”

Ele sorriu.
E anotou mentalmente:
“Próxima parada: relojoaria do shopping.”

Porque para Adalberto, o tempo era relativo.
E a moral...
Bem, essa ele já havia deixado congelada faz tempo

Adalberto e o Grupo de Oração

 Adalberto não era exatamente religioso, mas achava a igreja um lugar excelente para testar os limites da invisibilidade.

No domingo, como de costume, sentou-se nas últimas fileiras da Paróquia São Jorge de Capadócia — a mesma onde os fiéis se benziam até ao ver o panfleto do dízimo.

Era o último domingo do mês, dia do Grupo de Oração das Famílias. Um encontro animado, com louvor, partilha e, claro, WhatsApp fervendo com mensagens de fé, emojis de pombinha e gifs de Jesus piscando.

Adalberto, com seu celular discreto e sua mente afiada como navalha de barbeiro antigo, viu ali um campo fértil.

Pediu emprestado o celular da dona Sueli — senhora piedosa, conhecida pelas camisetas com frases como "Com Jesus no barco, tudo vai bem" —, com a desculpa de "ajustar o brilho".
Em menos de 15 segundos, fez o necessário.

No grupo do WhatsApp "Famílias em Cristo ❤️🔥", apareceu a seguinte mensagem, enviada do número da própria Dona Sueli:

“Irmãos, o louvor está bonito, mas o cheiro do desodorante vencido de alguns aqui tá me levando a orar em línguas de verdade.”

“E, só pra constar: a irmã Marileide desafina mais que porta de ferro enferrujada.”

O grupo, acostumado com mensagens de bênçãos e pedidos de oração, parou.

Marileide, que nesse momento estava exatamente no refrão de “Restaura-me, Senhor”, sentiu as palavras murcharem na garganta.

— Foi você, Sueli? — perguntou alguém, baixinho.

Sueli arregalou os olhos, o terço caiu da mão.
— O quê?! Eu nem sei digitar essas coisas!

O padre Valter, percebendo o clima carregado, tentou um salmo de apaziguamento, mas já era tarde:
A irmã Marileide foi embora antes do Amém final.
A Dona Sueli jurava de pés juntos que “alguém mexeu no meu aparelho”.
E as três irmãs do grupo de canto se recusaram a liderar o próximo louvor.

Na fileira do fundo, Adalberto apenas guardou o celular no bolso e se levantou calmamente.

Passou pela pia batismal, molhou os dedos, fez o sinal da cruz com convicção, e sussurrou para si mesmo:

“Até os anjos precisam de um pouco de entretenimento.”

E saiu, deixando para trás um grupo dividido entre o perdão cristão… e a vontade de descobrir quem foi o agente do caos que fez o culto virar comédia.

O invisível e o amigo oculto

 Era dezembro. O calor grudava nas costas e o ventilador da repartição girava como quem hesitava entre viver e pedir aposentadoria.

No Setor de Ajustes e Inconsistências Contábeis, a decoração natalina parecia feita por alguém que odeia dezembro: três bolas murchas, uma rena sem olho e uma fita vermelha que mais lembrava esparadrapo.

Mas havia o amigo oculto.
E isso bastava para gerar tensão.

Adalberto, claro, participava — embora ninguém lembrasse de tê-lo tirado, nem de ter tirado ele. Invisível, como sempre. Mas o nome estava na lista, letra torta, entre o do chefe e da moça do protocolo.

No dia da revelação dos presentes, reuniram todos na sala de reuniões. Panetone genérico, refrigerante quente e microfone com eco. O chefe abriu os trabalhos com um discurso que era uma ameaça passiva:
— O importante é a intenção, não o valor. — disse, encarando o financeiro.

Quando chegou a vez de Ricardo, o almofadinha do setor de contratos, ele foi até a frente e anunciou, sem saber que já era parte de um teatro montado:
— Meu amigo oculto é alguém... muito especial. Discreto. Gente boa... às vezes meio esquisito, mas... enfim.

Entregou o presente: uma caixa de papel craft, com fita azul e um cartão que dizia apenas:
“Seja mais cheiroso em 2025.”

Dentro, um desodorante roll-on e um perfume da marca “Fierce Instinct” — embalagem duvidosa, promessa exagerada.

A sala explodiu em risadinhas abafadas.
Adalberto, do canto, cruzou as pernas com calma.

Foi então que, discretamente, o presente seguinte apareceu no colo de Ricardo, sem ninguém saber quem o havia deixado ali. Um envelope. Sem nome.

Ricardo abriu.
Dentro, uma foto impressa: ele, sem camisa, num grupo de musculação de Facebook, com a legenda:
“Se você for meu amigo oculto, me dá suplemento de verdade.”

A sala parou.
Alguns engasgaram com a uva passa.
Outros disfarçaram o riso.

— Isso... isso não é meu! — disse Ricardo, o rosto já beterraba.
— Que coisa feia... — murmurou Dona Zuleica, com uma expressão de missa interrompida.

Ricardo jurava que nunca tinha mandado aquilo.
Mas a imagem estava impressa, plastificada e com o carimbo da impressora da sala ao lado.

A suspeita virou riso.
O riso virou desconforto.
O chefe pediu que “todos voltassem aos seus lugares” e que “o espírito natalino não fosse perdido por bobagens”.

Ninguém descobriu quem colocou o envelope no colo de Ricardo.
Mas Adalberto, do seu canto, tirou um bombom da caixinha e murmurou, quase para si mesmo:

“Amigo oculto é só mais uma forma social de dizer o que ninguém tem coragem.”

E passou o dedo na borda do copo de plástico como quem assina o mundo em silêncio.

Adalberto e o Espelho de Facebook

 Adalberto agora usava óculos de leitura e pastava os cabelos grisalhos com um pente pequeno que ficava sempre no bolso da camisa. Trabalhava no setor de tecnologia da Translog Express — nome bonito para “arruma impressora e troca senha do Wi-Fi”.

Ninguém sabia ao certo onde ele havia aprendido tanto de computadores, mas o fato era que Adalberto entendia de máquinas como padres entendem de pecado: por dentro.

Na empresa, havia muitos que lhe passavam batido, como sempre. Mas um deles — o Matheus do marketing — fazia questão de lembrar que Adalberto estava ultrapassado.

— O tio do TI mexe no Paint! — dizia rindo alto.
— Vai ver ele programou o Windows 95!

Matheus era do tipo que postava selfie até em enterro. Tinha cabelo com luzes, sorriso de consultório caro, e um Facebook cheio de frases motivacionais. Um personagem público de si mesmo.

Certa tarde, enquanto Matheus deixava o computador ligado com a senha salva no navegador — uma imprudência infantil diante de um homem como Adalberto —, a oportunidade surgiu como quem oferece maçã ao jardineiro.

Entrou no Facebook dele. Rápido. Sem hesitar.
Abriu o campo de publicação.

O que postou?
Não pornografia, nem xingamentos. Nada assim.
Foi pior.
Foi o que o próprio Matheus mais temia:
Verdade.

Adalberto, com a precisão de um poeta de guerra, escreveu:

“Tem dias em que eu só queria abraçar meu travesseiro e chorar ouvindo Sandy & Júnior.
Quando estou sozinho, finjo entrevistas no espelho, como se fosse famoso.
Às vezes uso meias do Pikachu e acho que ninguém percebe.
E sim, eu dancei Rouge na festa junina de 2004. Inteira.”

E postou.

Não marcou ninguém. Não botou risada. Apenas deixou lá, seco, direto, impessoal.
Como um bilhete deixado na porta da alma.

Em menos de 10 minutos:
— Curtidas.
— Risos.
— Gente comentando “força, irmão!”
— Um colega mandou: “Você é corajoso demais, eu nunca conseguiria admitir isso…”
— Uma ex-namorada respondeu: “Você sempre foi fofo, mesmo escondendo.”
— Um desconhecido compartilhou com a legenda: “Que homem sincero!”

Matheus, ao ver, quase caiu da cadeira.
Tentou apagar, mas já era tarde.
O post tinha virado história.

Correu dizendo que foi hackeado, que aquilo era montagem, que “não sou eu!”.
Mas ninguém acreditou.
Porque, no fundo, era ele.
E o que escandaliza não é a mentira — é a verdade que a gente finge não carregar.

Adalberto?
Na sala ao lado, recompunha a rede de impressoras.
Sem pressa.
Sem culpa.
Com um leve sorriso nos lábios.

E se perguntassem por quê, talvez dissesse algo assim — meio Pessoa, meio vingança:

“O que revelo nos outros é o que escondo em mim.
E, às vezes, mostrar ao mundo o que alguém é,
dói mais do que ser invisível.”

Adalberto aos Dez Anos, ou A Arte de se Ausentar de Si

 Adalberto tinha dez anos e já conhecia o sabor ácido da invisibilidade. Não a invisibilidade mágica dos contos, mas a outra — aquela que se instala quando ninguém espera nada de você, nem mesmo que responda à chamada.

Era o tipo de criança que, mesmo de frente para o professor, era chamada de “o de trás”. Seu caderno era limpo, não por zelo, mas por falta de anotações. Tinha os olhos sempre meio vazios, como se parte dele tivesse ficado em casa ou não tivesse vindo com o corpo.

Naquela manhã, a sala do 5º ano estava entregue à distração. A professora escrevia datas no quadro, o ventilador girava com a força exata de um suspiro, e havia um chiclete no bolso de Adalberto — daqueles cor-de-rosa que perdem o gosto em vinte segundos.

Na carteira da frente, sentava-se Fabiane. Cabelos longos, castanhos e armados, sempre com presilhas coloridas e um laço exagerado. Era a menina que falava alto, ria alto e andava como se a escola fosse passarela. Para Adalberto, ela era uma peça muito viva num mundo muito esmaecido.

Talvez por isso, ou por outra razão que nunca admitiria nem para si mesmo, ele fez o que fez.
Mastigou o chiclete. Macio, quente.
E, num impulso quase teatral — como se estivesse de fora, observando-se —, colou o chiclete bem no centro do cabelo de Fabiane. Apertou com firmeza. Sentiu a textura se perder entre os fios.

Logo depois, como se sua própria alma usasse máscara, apontou com o dedo curto e decidido:
— Professor! O Caio que fez!

Caio. O menino mais calado da sala. Que sentava ao lado da lixeira. Que gaguejava ao ler em voz alta. Que guardava os lápis por ordem de cor.

A professora olhou. Fabiane gritou. O caos desceu como cortina.
— Tem um negócio no meu cabelo!!! — gritou ela, puxando os fios, os olhos em pânico.
Chiclete no cabelo é sentença. Não há apelação. Apenas corte.

A mãe foi chamada. Tesoura em mãos. Saíram com Fabiane chorando, segurando uma mecha no bolso do casaco e um silêncio vingativo no olhar.

Caio, perplexo, foi levado ao diretor.
Tentou se explicar.
— Eu... eu não...
Mas a palavra "não" não corta o chiclete. Nem convence quando vem de um menino que já ninguém ouve.

Adalberto ficou sentado. Em silêncio. Ninguém o interpelou. Ninguém o notou.

E ali, entre a carteira e o vazio, teve um pensamento que não sabia nomear: uma culpa sem forma, uma espécie de peso que não doía, mas que se alojava — como um segundo corpo dentro do seu.

Talvez, se fosse Fernando Pessoa, teria dito:

“Fiz o que não fiz,
e o outro sofreu o que não era dele.
A justiça não é cega —
só olha para o lado errado.”

Mas Adalberto não disse nada. Nunca dizia.
Só mastigava o silêncio, como quem espera que o gosto volte.

O Invisível e a Proposta no Grupo Corporativo

 Era uma segunda-feira pós-feriado na Translog Express. A impressora havia voltado a engasgar, a cafeteira parecia cuspir óleo diesel, e os ânimos no setor de atendimento estavam suspensos por um fio de paciência.

Adalberto, como sempre, era o móvel humano da sala: ninguém tropeçava nele porque ninguém percebia sua presença. No crachá, o nome desbotado era só um lembrete de que ele ainda estava oficialmente ali.

Um mês havia se passado desde o escândalo Douglas-Breno, que ainda ecoava em cochichos no refeitório. Mas como toda tragédia de firma, acabara substituída por planilhas atrasadas e bolos secos no aniversário de setor.

Naquela manhã, quem chamava atenção era Flavinho do almoxarifado. Jovem, metido a galanteador, com gel demais no cabelo e botão de menos na camisa. Dizia-se “bom de lábia” e “fera no toque da conquista”.

O celular de Flavinho estava destravado e abandonado em cima de uma pilha de formulários. E era aí que Adalberto, eterno maestro do caos invisível, encontrava sua batuta.

Aberto no WhatsApp. O grupo: "Equipe Translog – Oficial 🚛"
44 membros. Supervisores, RH, até a dona da empresa, Dona Márcia — casada, respeitadíssima, do tipo que fala “querido” e demite com um aceno.

Adalberto respirou fundo. Digitou com precisão cirúrgica:

“Dona Márcia, eu não aguento mais esconder…
Seus olhos me perseguem no estoque, seus passos ecoam no meu coração.
Sei que é casada, mas a paixão não respeita aliança.
Vamos conversar, só nós dois. Um vinho, talvez.
Flávio.”

Mandou.
No grupo da firma.
Com emoji de coração, taça de vinho, e uma rosa.

Silêncio. Por três segundos.

Depois:
— “????????”
— “É sério isso?”
— “Tem criança lendo aqui”
— “É hackeado ou surto?”
— “Rapaz…”

Dona Márcia digitando...
Digitando...
Digitando...
Parou.
Digitando de novo.
A tensão dava pra cortar com colher de plástico.

A mensagem veio:

“Flávio, sugiro que se dirija imediatamente ao RH. E, por gentileza, use camisas com botões fechados.”

Seguiu-se uma enxurrada de reações: carinhas chorando de rir, gifs de explosões, alguém mandou um áudio imitando violino triste.

Flavinho, que voltava do banheiro mascando chiclete com a confiança de um pavão, parou ao ver os olhares. Pegou o celular. Leu.
Empalideceu.
— EU NÃO MANDEI ISSO!

— Foi você mesmo, irmão. Tá no grupo oficial, tá assinado, tem até flor!

Flavinho foi chamado ao RH sob o olhar congelado de Márcia. Saiu meia hora depois com olhos vidrados, camisa fechada até o pescoço e sem gel no cabelo.

Na sala, Adalberto retornou à sua mesa. Abriu a planilha “itens vencidos 2023”.
Sorriu.
Como diria seu autor favorito, Millôr Fernandes:

“A vida é uma peça de humor. O problema é que quase ninguém acha graça enquanto está no palco.”

Mas Adalberto achava. Achava muita.

O Invisível e o Amor Que Não Era Dele

Era uma tarde sem importância no escritório da Translog Express — empresa que entregava papéis com a mesma seriedade com que seus funcionários matavam tempo no cafezinho. O ar-condicionado tossia. A máquina de café gotejava um resto de expresso sem alma.

Adalberto, como sempre, passava despercebido entre as baias. Cabelos ralos, camisa bege, um crachá gasto preso com fita adesiva. Trabalhava no setor de cadastro, o tipo de função que ninguém sabe exatamente o que faz, mas que, quando falta, alguma coisa trava.

Sentado a duas baias dele, estava Douglas. Terno azul-marinho apertado, perfume forte, e aquele tipo de hétero que começa frases com “sou casado, mas posso elogiar, né?”. Mais adiante, no financeiro, havia o Breno — camisa polo, barba por fazer e o costume de usar fones mesmo quando não estava ouvindo nada.

Adalberto já sabia: Douglas e Breno não se suportavam, mas mantinham a máscara da cordialidade típica de ambientes onde o RH vigia tudo.

Naquele dia, na hora do almoço, Douglas esqueceu o celular em cima da mesa. Travado, mas não bloqueado — aberto na conversa do WhatsApp com Breno. Uma troca seca de mensagens sobre o rateio do estacionamento.

Adalberto, invisível até para as câmeras de segurança, deslizou até o aparelho. Com um gesto tranquilo, digitou:

“Eu fico te olhando e querendo dizer, mas não tenho coragem. Acho que estou apaixonado. Só queria que você soubesse. Desculpa se for demais.”

Enviou.

Saiu.
Sentou-se novamente e abriu uma planilha qualquer, fingindo revisar CPF.

O caos chegou quinze minutos depois.

Breno, com o celular em mãos, foi até a baia de Douglas. Segurava o aparelho como quem carrega um teste de gravidez positivo.
— Que porra de mensagem é essa?

Douglas, que voltava do almoço mascando chiclete, travou no passo.
— Que mensagem?

— Essa aqui, cara! — estendeu o celular, dedo tremendo.

Douglas leu. Empalideceu. Riu. Depois parou de rir.
— Isso é trote. Tu tá me zoando?

— Zoando? Foi você que mandou!

— Eu? Tá maluco? Eu sou casado, irmão! Tenho filha!

— E eu tenho nojo! Não vem com gracinha, não! Você que me olha torto desde que eu entrei! Tá achando o quê?

A discussão atraiu o setor todo. Teve supervisora gritando “vamos manter o respeito!”, teve gente filmando, teve estagiário indo buscar o RH.

Adalberto apenas levantou os olhos da planilha e suspirou, como quem lamenta a pressa do mundo. Depois se levantou, foi até o filtro, encheu um copo d’água e voltou calmamente, saboreando o espetáculo.

Na semana seguinte, Breno foi transferido pro setor de logística externa. Douglas passou a trancar o celular até pra ir ao banheiro. E o grupo do WhatsApp da firma ficou silencioso por dois dias inteiros.

Adalberto, esse, manteve-se onde sempre esteve: na sombra do canto da sala, entre a impressora sem papel e a planta artificial. Invisível. Mas atento. Esperando a próxima abertura de tela. 

O Invisível e o Amor Rubro-Negro

 Adalberto estava no churrasco de família como quem cumpre expediente. Sentado num canto da varanda, equilibrava o copo de refrigerante morno no joelho e observava os rituais masculinos em volta da churrasqueira: piadas recicladas, tapas nas costas, discussões sobre pênaltis de 2009.

Yuri — o primo — liderava a roda como sempre. Camiseta justa, boné virado pra trás, riso alto e musculatura ostensiva. Havia algo nele que exalava segurança de quem nunca passou uma tarde inteira em silêncio num refeitório.

O celular de Yuri estava largado sobre a mesa de plástico, carregando sob o sol. Uma notificação piscava: "Trem do Mengão🔥⚽".

Adalberto esticou a perna. Não era por vingança. Era por esporte.

Deslizou o dedo, abriu o WhatsApp. Vinte e três marmanjos: amigos, ex-colegas, vizinhos — todos rubro-negros, todos com avatares de jogadores berrando ou taças erguidas.

Digitou com calma, como quem escreve bilhete de despedida:

“Eu te amo. E não é de agora. Tô cansado de esconder. A verdade é que eu amo vocês. Cada um desse grupo. Tô falando sério.”

Coração vermelho. Bandeira do Flamengo. Uma lágrima emoji.

Mandou.

Fechou o app, colocou o celular exatamente como estava, e voltou a observar.

Do outro lado da varanda, Yuri mordeu uma coxa de frango, riu de uma piada sobre o VAR, e então viu a tela acender.

— Que porra é essa? — disse alto, parando de mastigar.

Silêncio no grupo da churrasqueira. Silêncio na varanda. Silêncio até na casa da vizinha.

O grupo "Trem do Mengão" respondeu em segundos:

— “Kkkkkkkkkk que isso, irmão?”
— “Tá falando sério ou é pegadinha?”
— “É do jogo ou do coração?”
— “Fica tranquilo, Yuri. Eu também te amo. 😂”
— “Agora tudo faz sentido... aquele dia do churrasco em 2021... 👀”
— “Já pode trocar o nome do grupo pra ‘Amor entre Rubros’”
— “Te entendo, mano. Esse time emociona mesmo.”
— “Aí eu choro 😢🔥”

Yuri ficou vermelho. Primeiro de confusão, depois de raiva.
— Alguém pegou meu celular, véi. Quem foi o filho da...?

Olhou em volta. Ninguém reagiu. Alguns riam abafado. Outros evitavam o olhar. Yuri encarou Adalberto por um segundo — aquele primo calado, o que trabalha com "coisa de computador", o que nunca é marcado em foto nenhuma.

Adalberto apenas sorriu, muito levemente. E deu outro gole no refrigerante.

Yuri saiu bufando, celular em punho, dizendo que ia sair do grupo e criar outro “com gente normal”.

No fim da tarde, Adalberto ajudou a guardar as cadeiras. Saiu cedo, como sempre. Sem levantar suspeitas. Sem dizer nada. Mas, naquela noite, dormiu com o telefone no peito, ainda rindo do novo nome do grupo:

"Mengão e Emoção ❤️🖤"

E uma nova mensagem fixada:

“Sentimento é pra quem tem raça.”

O Menino Invisível e a Festa das Cabeças Trocadas

 Na quarta série da Escola Municipal Prof.ª Efigênia Vasconcelos, Adalberto já era um vulto em miniatura. Não sujava a lousa, não levava bilhete na agenda e nunca esquecia a régua — mas ninguém lembrava dele nas rodas de perguntas nem nas fotos da gincana. Na chamada, o silêncio entre o “Bruno” e a “Camila” era o único sinal de que ele existia.

Por isso, Adalberto ouvia. Observava. E tramava.

Tudo começou numa sexta-feira de avaliação de Ciências. Dona Carmem explicava, com sua voz de desânimo histórico, as diferenças entre répteis e anfíbios. Enquanto isso, Adalberto testava a elasticidade de um estilingue feito com a liga de borracha de um estojo da Turma da Mônica. Não tinha alvos definidos — apenas convicção.

A primeira vítima foi Jeferson, o popular. O elástico acertou a nuca dele justo quando escrevia “pele úmida” na resposta sobre o sapo-cururu. Jeferson virou-se num salto, olhos faiscando, e apontou para Tainá, que estava com um lápis de ponta afiada e cara de inocente ofensiva.
— Foi ela!

A confusão começou ali, com Tainá em lágrimas, Jeferson jurando por todos os santos e Dona Carmem gritando um “Ninguém vai sair pra recreio!” tão definitivo que as janelas pareceram embaçar.

Mas Adalberto queria mais.

No dia seguinte, aproveitando o intervalo, plantou um chiclete mascado (dos outros, é claro — ele era metódico demais pra mascar qualquer coisa) no encosto da cadeira de Felipe, o menino que tinha alergia a injustiças e usava fichário cor-de-limão. Felipe sentou, grudou, levantou aos gritos:
— Isso é coisa da Isadora! Ela sempre tem chiclete!

Isadora, que de fato mascava como uma secretária dos anos 90, foi pega de calça curta. Quando tentou explicar, Felipe já listava crimes antigos dela, como uma promotoria descontrolada: "Ela colou na prova de matemática! Ela quebrou o apontador do prof. Danilo! Ela riscou o cartaz da dengue!"

Mais uma leva pra diretoria.

Adalberto, sentado no seu canto, abria discretamente um pacote de bolacha cream cracker — que ninguém pedia, pois todos achavam que ele levava por falta de opção.

A glória veio com a “atividade da cabeça”. A professora trouxe máscaras de papel machê para os alunos pintarem. O plano de Adalberto foi simples e cruel: trocou, na hora do recreio, os nomes colados embaixo das máscaras. A de Jeferson (pintada com escamas verdes e dentes afiados) foi parar com Camila. A de Camila (rosa com glitter e uma frase motivacional) foi parar com Bruno, que se recusava a usar rosa desde a Educação Infantil.

Na hora da entrega, o caos foi absoluto. Choro, ranger de dentes, gritos de “roubaram a minha identidade!”. Teve até um começo de vômito emocional.

Resultado: cinco alunos na diretoria. A professora, com enxaqueca. O diretor, com uma pasta nova de advertências.

E Adalberto?

Fez um desenho silencioso: um sapo sorrindo, com óculos escuros, embaixo de um sol que brilhava só pra ele.

No final da aula, pegou sua lancheira de couro sintético e foi embora devagar, com a calma dos inocentes. Ou dos invisíveis. Que, às vezes, são os mais perigosos.

O invisível e o tapete de fundo

 Desde a infância, Adalberto suspeitava que era invisível. Não como nos livros de capa mole que lia embaixo do beliche, mas invisível à maneira dos que passam pela sala e ninguém percebe. Gente que entra num elevador e ninguém se incomoda em apertar o botão por ela. Com o tempo, Adalberto refinou essa habilidade: aprendeu a caminhar entre as mesas da repartição sem provocar uma só interrupção no teclar dos teclados.

Na repartição — Setor de Ajustes e Inconsistências Contábeis do município — era invisível até para o chefe, que certa vez o passou direto para pedir café a um estagiário. Mas Adalberto não se ofendia. O invisível, dizia para si mesmo, tem o privilégio de andar pelo mundo como um gato de biblioteca: sem ser notado, mas sempre presente.

Foi numa terça-feira abafada que decidiu colocar sua invisibilidade à prova. Havia um colega novo, Wellington, desses que trazem marmita vegana e usam palavras como “sinergia”. Tinha voz de rádio comunitária e mania de organizar os papéis dos outros, o que para Adalberto era um crime equivalente a danificar um vitral de igreja barroca.

Primeiro, Adalberto trocou o atalho do teclado do Wellington. A tecla que antes salvava, agora abria um GIF animado de um gato pelado dançando ao som de um tambor distante. Ninguém percebeu — até a sexta vez em que o som escapou durante a videoconferência com a secretária adjunta.

Depois veio a segunda fase: Adalberto, em seu manto de invisibilidade metafísica (e um crachá virado ao contrário), entrou sorrateiro na máquina do rapaz e trocou o papel de parede. No lugar da foto do seu golden retriever chamado Dharma, apareceu um banner de letras garrafais:
“TODOS AQUI SÃO INÚTEIS, MENOS EU.”
Fonte Comic Sans. Fundo neon. Um clássico do desprezo.

Na manhã seguinte, o setor era só cochicho. Dona Zuleica, que falava com as plantas, olhava Wellington como se ele tivesse cuspido no vaso da samambaia. E foi quando Adalberto, ainda invisível, preparou a cereja do bolo: alterou a assinatura automática do e-mail do rapaz para incluir a frase:
“Favor não me incomodar com problemas de gente medíocre.”

O e-mail foi enviado à chefia. À ouvidoria. À vice-prefeitura. E, por engano, à mãe de Wellington, que mantinha o e-mail do filho salvo desde os tempos de feira de ciências.

A reunião extraordinária aconteceu numa sexta. Os chefes chamaram Wellington para uma “conversa”. Ele entrou com seu potinho de lentilha, saiu com o aviso de suspensão. Ninguém o viu mais.

Adalberto, por sua vez, permaneceu. Invisível, como sempre. E agora com uma sala só sua. Fez questão de trocar o papel de parede do computador novo por um pôr-do-sol em tons tristes. Apenas para lembrar que, por vezes, a sombra não vem das nuvens — mas das figuras que não vemos.

E foi assim que o invisível ganhou um nome no crachá. Ainda que ninguém o olhasse nos olhos.

terça-feira, 10 de junho de 2025

Responsabilidade com o Responsável

 Ser humano é mais do que viver para si mesmo. É também assumir o papel de guardiões do que nos foi confiado — animais, plantas, a terra. Temos o dom da razão, e com esse dom, vem a responsabilidade de cuidar, preservar e fortalecer a vida ao nosso redor.

Nosso cão não é apenas um companheiro. Ele é um amigo, um ser que depende de nós para viver com dignidade. E por isso, devemos ter responsabilidade com esse responsável — aquele que nos ama sem exigir nada, que nos protege, que se alegra com a nossa presença. O mínimo que devemos a ele é zelo, cuidado e consciência.

Não é ético forçar raças como os pugs, por exemplo, a se multiplicarem com genes que provocam sofrimento: narizes achatados, problemas respiratórios, dificuldades motoras. Isso é ir contra a natureza e contra o próprio princípio da criação. Criar um ser para viver doente é desumano. A genética deve ser usada para fortalecer, não para enfraquecer.

Da mesma forma, com as plantas que comemos, devemos cultivar com respeito e sabedoria. Plantas saudáveis nutrem melhor, resistem às pragas, enriquecem o solo. Mas quando manipulamos a natureza unicamente por lucro ou por vaidade, criamos frutos que duram mais na prateleira, mas não nutrem como deveriam. Estamos alimentando o corpo com menos do que ele precisa e o espírito com menos ainda.

A responsabilidade verdadeira é silenciosa, paciente, muitas vezes invisível. Ela está no criador que seleciona cães com boa respiração e estrutura forte. No agricultor que respeita a terra e escolhe sementes rústicas e vivas. Está em cada um que cuida do que é vivo como se cuidasse de um filho.

Porque no fim das contas, é isso mesmo: somos pais e mães da natureza domesticada. E assim como um pai deve ensinar e fortalecer o filho, nós devemos fortalecer os seres sob nossos cuidados.

O mundo não precisa de mais controle. Precisa de mais consciência do lugar que ocupamos. Precisamos voltar a agir como faziam nossos avós no campo: com sabedoria passada adiante, com respeito ao ritmo das coisas, com responsabilidade por cada vida sob nosso teto — ainda que essa vida seja de quatro patas ou de raízes fincadas na terra.

Se somos humanos, devemos ser também humanizadores. Cuidar para que cada ser que criamos ou cultivamos tenha não só vida, mas vida digna.