O relógio marcava 12h47 no Soluções Integradas Alfa. No segundo andar, a copa corporativa era território neutro durante o almoço. O micro-ondas apitava como uma sirene triste e o cheiro de lasanha congelada pairava no ar feito promessa de gastrite.
Ali estavam Guto e Ednilson — dois colegas de setor, amigos de longa data e representantes do mais clássico estereótipo hétero de empresa:
– falavam alto,
– zombavam dos outros,
– chamavam qualquer cuidado estético de “frescura”.
Adalberto, do canto da escada, observava. Não por julgamento. Por oportunidade.
E ela chegou.
O frasco estava no bolso desde cedo.
O plano, simples.
O efeito, devastador.
Adalberto girou a tampa.
O tempo parou.
O mundo virou vitrine de loja: tudo imóvel, sem som, sem vida.
O vapor do macarrão parou no ar.
A colher caiu sem cair.
Até o ponteiro do relógio ficou congelado, quase ofendido.
Com o mesmo cuidado de quem arruma uma vitrine, Adalberto foi até os dois.
Inclinou os rostos.
Puxou o pescoço de um, ajeitou o queixo do outro.
Encaixou os lábios.
O toque era leve, falso, simulado, mas convincente o bastante.
Foto.
Depois, tirou o celular da mochila de um deles e enviou, no grupo de trabalho “Equipe Alfa – União e Foco”:
“Que esse momento nunca acabe ❤️”
Com a imagem anexada.
E então, com o frasco já na mão, ele ouviu um barulho sutil:
passos.
Na escada.
Era Cláudia.
A funcionária de RH, fofoqueira profissional, olhos treinados como radar de novela mexicana.
Subia com pressa, café numa mão e celular na outra, quando Adalberto girou a tampa.
O tempo voltou.
PLIM.
E Cláudia, no topo da escada, viu.
Os dois homens ainda próximos. A atmosfera confusa.
Guto afastando o rosto, Ednilson arregalando os olhos.
Ambos pareciam ter acordado de um transe.
Cláudia arregalou os olhos de um jeito que, se fosse desenho animado, teria voado para trás.
— EITA.
— MEU PAI ETERNO.
Ela desceu correndo e, sem pensar duas vezes, gritou no corredor:
— TÁ ROLANDO BEIJO NA COPA. ENTRE GUTO E EDNILSON! NÃO É BRINCADEIRA, EU VI! E TÁ NO GRUPO!
A mensagem já circulava.
Os celulares apitavam como cigarras.
Gente ria. Gente torcia o nariz.
E Guto tentava apagar a mensagem do grupo, suando como quem fez dívida com agiota.
— EU NÃO MANDEI ISSO!
— MAS TÁ DO SEU NÚMERO, GUTO! — alguém respondeu.
Ednilson só murmurava:
— Isso é montagem, é montagem... não sei o que tá acontecendo...
Adalberto?
Sentado na copa, comendo uma barra de cereal light e analisando o rótulo, como se o escândalo ao redor fosse parte de um documentário sobre pássaros migratórios.
Cláudia não deixou barato:
— Eu sempre achei esses dois... intensos demais. A gente percebe, a gente percebe!
O chefe chegou, a confusão aumentou, alguém invocou “direitos trabalhistas” e até sugeriram uma palestra sobre diversidade (ironicamente organizada por Ednilson).
Mas nada tirava o brilho daquele momento:
a aparição de Cláudia no topo da escada,
o clique de uma foto que nunca aconteceu,
e a risada abafada de Adalberto ao ver o mundo tentando entender o que só ele sabia.
O tempo é relativo.
Mas a vergonha... essa é eterna.
Adalberto e a Reunião Inexplicável
Dois dias após o episódio do beijo-surpresa e da aparição mística de Cláudia na escada, a empresa Soluções Integradas Alfa ainda respirava o perfume de escândalo misturado com café requentado.
Os memes circulavam nos bastidores.
As piadas eram sussurradas no corredor.
E o grupo “Equipe Alfa – União e Foco” estava tão silencioso quanto uma igreja às quatro da manhã.
Foi então que, na manhã de quinta-feira, dona Neide, gerente geral e dona da empresa, chamou os dois envolvidos para uma conversa.
Tom de voz calmo.
Olhar firme.
E aquele blazer florido que ela usava só em ocasiões delicadas.
— Ednilson. Guto. Na minha sala. Agora.
Eles se entreolharam com o olhar de dois náufragos vendo a tempestade chegar.
Sentaram-se à frente da mesa de vidro.
Dona Neide cruzou as mãos. Suspirou.
— Olha... eu não vou ser careta aqui. Cada um tem sua vida. Seus gostos. Seus momentos. Mas aqui é uma empresa, um ambiente de trabalho.
Os dois arregalaram os olhos.
— Como assim? — disse Guto.
— Eu não sei o que a senhora quer dizer… — completou Ednilson.
Ela puxou o celular.
Colocou a tela virada pra eles.
A foto.
A famosa.
A polêmica.
A indecifrável.
Os dois rostos colados.
A copa ao fundo.
E o vapor do macarrão formando uma aura quase divina atrás.
— Não é o caso de demissão. — disse Neide, com voz maternal — Mas se vocês têm algo um com o outro, só peço que respeitem o ambiente profissional. Não é lugar pra esse tipo de manifestação.
Guto gesticulou como quem se afoga.
— Dona Neide, eu JURO que isso não aconteceu! Eu não beijei ninguém! Eu nem sei o que é isso!
— Isso é montagem! Montagem! — reforçou Ednilson, quase tropeçando nas palavras.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Então vocês não estão…?
— NÃO! — gritaram os dois, em uníssono, ofegantes, corados, suando mais que café passado.
Ela olhou com uma leve compaixão e disse:
— Olha, se vocês ainda não se assumiram, tudo bem. Eu só peço: conversem. Se organizem. Mas não tragam isso pro grupo da empresa. Tem cliente, tem parceiro vendo aquilo ali… a Cláudia já veio aqui me mostrar três prints. Três!
Silêncio.
Os dois saíram da sala sem entender se estavam sendo punidos ou convidados a um relacionamento oficial.
E no fundo da copa, atrás da porta entreaberta, Adalberto mastigava sua barra de cereal light.
Sem rir.
Sem sorrir.
Apenas com um olhar contemplativo.
Porque não há graça maior do que ver o mundo tentando resolver um problema que nunca existiu —
pelo menos, não no tempo deles.