domingo, 15 de junho de 2025

Adalberto e a Noite da Escola Trancada

 Sexta-feira, final de tarde.

A algazarra do 9º ano já ecoava pelos corredores como um trovão: papel voando, gritaria, gente subindo no corrimão, outro tentando acender isqueiro escondido com bala de hortelã.

Adalberto, invisível e de braços cruzados, observava com aquele olhar maroto de quem planeja.
E então, clac, virou a chave. Literalmente. Trancou o portão principal, as portas internas, as saídas de emergência, e guardou o molho de chaves dentro de um estojo de canetinha no fundo do armário de ciências.

A escola seguiu na balbúrdia até que, por volta das 18h, um aluno tentou sair:

— Ué... trancaram o portão?

— ISSO NÃO É HORA DE BRINCADEIRA, ABRE A PORTA! — gritou Bia.

Mas a porta não se mexia. Nem com empurrão, nem com chaves reservas (que também tinham sumido), nem com os berros de "É o Miguel que sempre faz isso!". A noite caiu.

Lá pelas 19h30, começaram os celulares a tocar. Primeiro, os toques ignorados. Depois, as mensagens começaram:

Pai do Rafa: “Alguém viu o Rafa? Já era pra estar em casa.”

Mãe do Miguel: “Aqui nada. Miguel falou que ia direto. Você não cuida do seu, quer que eu cuide também?”

Pai do Tiago: “Não é meu filho que espalha cola nas cadeiras. Culpa é do seu mimado aí!”

Mãe da Bia: “Não vem culpar minha filha, que educada ela é! Quem vive reclamando dos professores é o tal do Miguel.”

E então, a avalanche começou.

Meia hora depois, os pais estavam aglomerados no portão da escola, gritando entre si. Uma mãe chegou com escada, um pai com alicate de pressão. Outro pai queria chamar a imprensa.

— SEU FILHO É UM VADIO DESOBEDIENTE, DÁ MAU EXEMPLO!

— AH, VAI TOMAR CONTA DA SUA VIDA! AQUI É TODO MUNDO PRESO POR CULPA DOS SEUS ANJINHOS!

Enquanto isso, dentro da escola, os alunos em completo desespero.

— Gente, isso aqui vai sair no G1 — sussurrou Tiago.
— Alguém aqui tem comida? — perguntou Bia, tremendo.
— Achei um pão de queijo debaixo do bebedouro. Meio mole. — disse Miguel.
— Aceita, é melhor que nada. — responderam em coro.

Adalberto, naturalmente, se divertia. Invisível, passava entre pais em pé de guerra e alunos meio chorando, meio rindo, meio culpando uns aos outros.

A cereja do bolo foi quando um pai começou a escalar o muro com a escada da faxina emprestada do zelador. Chegou no topo e caiu direto numa moita. A ambulância foi chamada.

Já era quase meia-noite quando o vigia, que finalmente acordou do cochilo na guarita, disse:

— Ué, que confusão é essa? Tem gente trancada?

E abriu uma porta lateral, esquecida há anos, que estava… destrancada.

Os alunos saíram cabisbaixos, abraçados às mochilas, suando de nervoso. Os pais gritavam, abraçavam, empurravam, acusavam e juravam processar a escola, os colegas, o sistema, a prefeitura e até um cachorro que latiu na rua.

Na manhã seguinte, uma professora encontrou o molho de chaves dentro de um estojo cheio de canetinhas secas.
Ninguém sabia como foi parar lá.

Na última carteira da sala de ciências, um bilhete dobrado, escrito à mão com letra impecável, dizia:

“Toda revolta começa com desordem. Toda desordem começa com filhos criados com wi-fi.

De nada.
— A.”

Adalberto, claro, tomava um café na padaria da esquina e ria enquanto lia a notícia:
“Pais em confusão generalizada após sumiço de alunos em escola trancada misteriosamente.”

Adalberto e o Exame do Palhaço

 Era uma manhã nublada quando Zé Mauro, o palhaço mais mal-afamado da cidade, recebeu no celular um e-mail com o timbre impecável do Hospital Santa Salvação, remetente: notificacoes@santasalvacao.org.

Assunto:
"Solicitação Urgente de Exames Proctológicos - Zé Mauro da Silva"

No corpo do texto, entre termos médicos assustadores e uma frieza administrativa típica de hospitais, lia-se:

“Prezado Sr. Mauro, em virtude de relatos e sintomas associados a ingestão exagerada de pimenta malagueta, cocadas cristalizadas e bombons de pimenta dedo-de-moça, solicitamos seu comparecimento ao setor 3B para realização de exames proctológicos, incluindo colonoscopia e toque retal com dupla conferência.

Caso o senhor se recuse, será registrado em prontuário que houve negligência voluntária diante de possível quadro grave de hemorroida avançada tipo 3B inflamada.”

Zé Mauro arregalou os olhos.

— EU?! HEMORRÓIDA?! MALAGUETA?! — berrou para o gato, que dormia no sofá.

Num rompante, botou a roupa de palhaço (única roupa limpa no momento), entrou num ônibus, desceu na frente do hospital e invadiu a recepção como um furacão de maquiagem derretida e indignação.

— EU QUERO FALAR COM O CHEFE DOS MÉDICOS! EU NÃO TENHO HEMORRÓIDA!
EU SOU UM HOMEM LIMPO! SÓ COMI UM KIBE APIMENTADO EM 2009!

A recepcionista travou o teclado no susto.

— Senhor... o senhor tem agendamento?

— AGENDAMENTO?! VOCÊS É QUE TÃO ME AGENDANDO PRA MEXER NO MEU TRÁS SEM MINHA PERMISSÃO! — e bateu no balcão como se estivesse num tribunal popular.

— Mas... senhor Zé Mauro... não temos nenhum e-mail vindo do nosso sistema.

— TÁ AQUI Ó! — gritou, mostrando o celular com a mensagem, sem notar que a fonte usada era Comic Sans e o rodapé dizia:
"Hospital Santa Salvação - Confiança que escorre"

Segundos depois, o segurança chegou, duas enfermeiras vieram ver o que estava acontecendo, e uma médica jovem tentou acalmar:

— Senhor, não há nenhum pedido desse tipo, e nem usamos esse endereço eletrônico. Isso parece forjado.

Zé Mauro empalideceu, depois corou, depois ficou azul.

— FOI ELE. FOI AQUELE!
O DEMÔNIO DE GRAVATA: ADALBERTO!

No exato momento, Adalberto caminhava calmamente pela praça em frente ao hospital, chupando um drops de menta, com o mesmo ar de quem assiste uma boa novela.

Dentro do hospital, o caos se instalou:

– Duas pacientes gravaram o surto e já postavam no TikTok com a hashtag #PalhaçoDoToque.
– A segurança discutia se ligava pra psiquiatria ou pra TI.
– Zé Mauro exigia um exame ali mesmo, na frente de todos, só “pra provar que não tem nada inflamado!”

No final, após 40 minutos de histeria, gritos e discussões sobre cocada apimentada, o hospital imprimiu um atestado negando qualquer procedimento solicitado ou suspeita de hemorroida, só para ele ir embora.

Na saída, ainda transtornado, Zé Mauro viu um bilhete preso em seu para-brisa:

Evite pimentas e e-mails falsos.
Cuide-se, Zé.
— A.”

Ninguém viu quem deixou o bilhete.

Mas na recepção do hospital, um rapaz alto, de gravata azul, riu baixinho enquanto fingia esperar atendimento.

Seu nome no crachá: Adalberto – TI Temporário.

Adalberto e o Palhaço da Verdade Congelada

 O dia já se arrastava pelas calçadas quando doutor Otacílio cruzou a porta da empresa. Terno suado, pasta surrada, ego polido.

Foi nesse momento que Adalberto acionou o frasco, agora em versão roll-on, com discreto aroma de eucalipto mentolado.
E o tempo, obediente como bom relógio quebrado, parou.

Carros imóveis.
Folhas suspensas no ar.
Otacílio, com um pé ainda no ar, congelado na saída como se hesitasse entre ser advogado ou personagem de boato.

Adalberto, sereno, entrou em seu Fiat Prêmio 1989, virou a chave, e dirigiu pelas ruas vazias até um ponto específico: o posto de gasolina desativado onde se reuniam figuras errantes da cidade.

Lá, entre placas tortas e pichações com erros de ortografia, estava Zé Mauro, em seu traje de palhaço Bozo — rosto pintado, peruca torta e uma Fanta quente na mão.

— Vem comigo — disse Adalberto, mesmo sabendo que Zé Mauro já estava parado, imóvel, como todo o mundo fora ele.

Porque era assim: só Adalberto se movia no tempo parado.
O resto virava boneco de cera.

Então, com um pouco de esforço, ele pegou Zé Mauro no colo, o arrumou no banco do passageiro como quem posiciona uma estátua, voltou para a empresa, abriu a porta com o crachá de Cláudia (que deixara pendurado num gancho) e posicionou Bozo bem ao lado do advogado congelado, que ainda saía da porta.

Era uma cena linda, na verdade.
O advogado sério e o palhaço sorrindo.
Pareciam capa de romance alternativo.

Adalberto pegou o celular de Otacílio, usando luvas de vinil, e clicou em selfie.
Tirou umas três, testou ângulos.
Na escolhida, o Bozo fazia “joinha” e Otacílio parecia sorrir sutilmente (por puro acaso do congelamento muscular).

A legenda?

"Cliente amando outro homem, mas me pediu sigilo.
Tô aqui protegendo os direitos das pessoas amarem em segredo.
Esse é meu amigo Bozo."


Postou no stories, printou e mandou número privado de Cláudia direto do WhatsApp do advogado.
Legenda no print:
"Ops, saiu no perfil errado kkkk"

Desfeita a obra-prima, Adalberto voltou ao carro com Bozo estático, deixou-o no mesmo lugar do posto, arrumadinho, com a Fanta ainda na mão, e voltou para seu canto.
Apertou novamente o frasco.

O tempo voltou.
Pássaros voaram.
Porta automática abriu.
Doutor Otacílio desceu os degraus sem saber que agora tinha uma nova identidade digital e um novo melhor amigo palhaço.

Cláudia foi a primeira a ver a notificação.

— MEU DEUS, ELE POSTOU ISSO AQUI?! — gritou, já repassando o print para três grupos diferentes.

Nos corredores, começaram os burburinhos.
Guto soltou um “🤡”,
Ednilson se benzeu sem entender por quê.
Dona Neide mandou um áudio dizendo:
— Isso é assunto pro jurídico...

Otacílio, ao checar o próprio celular, gritou como quem descobre que virou meme:

— MAS QUE… MAS QUE PALHAÇADA É ESSA?!
E dessa vez, não era metáfora.

No fundo da sala, Adalberto ajustava a gravata com ar tranquilo.

Afinal, só há uma coisa mais poderosa que o tempo:

A fofoca bem planejada.

Adalberto e o Advogado da Verdade

 Após o bilhete de amor impresso misteriosamente do seu terminal, Ednilson entrou em colapso moderado.

Não o tipo que se joga no chão e grita —
Mas o tipo que passa a madrugada lendo fóruns sobre segurança digital, colando post-its no monitor com senhas de 30 caracteres, e ligando para a mãe dizendo:

— Mãe, se algo acontecer comigo, o problema tá na impressora da empresa.

No dia seguinte, ele chegou na Soluções Integradas Alfa com terno mal passado e um homem baixo e robusto a tiracolo.

— Esse aqui é o doutor Otacílio. Especialista em crimes digitais e danos morais.
— Sou perito autodidata, técnico em redes e formado em Direito por correspondência. — completou Otacílio, estendendo a mão com uma pasta tão gasta que parecia datar da época das LAN houses.

Adalberto, ao ver a dupla entrar, quase engasgou com sua barrinha de cereal light.
Mas manteve o semblante impassível.
Como se dissesse:

"Ora, ora, temos um cavaleiro da justiça entre nós..."

A cena que se seguiu foi digna de auditório de TV vespertina:
Otacílio exigindo acesso ao sistema da impressora,
pedindo logs de IP,
perguntando quem mais usava o computador,
falando em “rastros digitais” e “vírus que imprimem sozinhos”.

Cláudia filmou parte da conversa escondida.
Dona Neide mantinha a paciência de quem medita com incenso.

— Mas, doutor… o senhor quer dizer que alguém invadiu o sistema pra imprimir um bilhete de amor?
— Exatamente, minha senhora. E não se surpreenda se o próximo passo for usar o sistema para fazer compras ou mandar mensagens comprometedoras.

Adalberto, fingindo atender um cliente por e-mail, riu baixinho.

E então veio o ponto alto:

Otacílio entregou uma notificação extrajudicial para ser anexada à ata da empresa, exigindo que:

  1. O nome de Ednilson fosse oficialmente isentado da autoria do bilhete.

  2. Que todos os envolvidos no setor tivessem senhas trocadas.

  3. Que a empresa providenciasse antivírus premium para todos os terminais.

  4. E que fosse feito um comunicado interno restaurando a honra do funcionário injustamente acusado.

Guto murmurou:
— Ele acha que a gente é a NASA.

Dona Neide respirou fundo e respondeu:

— Tá bom. Vamos conversar com o jurídico da empresa e ver o que pode ser feito.
— Ah, mais uma coisa — disse Otacílio, levantando o dedo —. Também recomendaria desligar a Cláudia dos grupos de WhatsApp.

Cláudia gritou da copa:
— EU OUVI!

Adalberto, nesse momento, fingia espirrar.
Mas era só pra disfarçar o riso.

Mais tarde, no fim do expediente, Otacílio foi embora deixando seu cartão com a frase:
"Justiça começa com J... de Jeito."

E Ednilson, aliviado, sentiu-se limpo.
Pelo menos até abrir o armário e encontrar um novo bilhete:

"Nunca vi alguém brigar tanto pra esconder o que sente. Mas tudo bem. Continuo aqui, seu admirador... do RH."

Letra impressa.
Fonte Arial 12.
E o perfume discreto da confusão, que Adalberto espalhava como quem borrifa lavanda num travesseiro antes de dormir.


Adalberto e o Amor em Fonte Arial 12

 Depois da reunião com dona Neide, Ednilson e Guto entraram em modo missão secreta.

Decidiram que era hora de limpar seus nomes.
Ninguém mais fazia piada abertamente, é verdade, mas bastava eles entrarem na copa para o volume das conversas cair como elevador quebrado.

— A gente precisa de um laudo técnico, cara. Um perito digital.
— Já pensei nisso. Um especialista em deep fake! A gente prova que é montagem e pronto!

Enquanto isso, Adalberto ouvia tudo da sua baia, mexendo numa planilha que só continha células vazias formatadas como se fossem importantes.
E pensava:

“A verdade não precisa ser provada. Basta que pareça convincente o bastante para virar boato.”

Na sexta-feira seguinte, com a atenção toda voltada para o “Caso do Beijo”, Adalberto resolveu lançar uma segunda temporada do caos.

Usando a impressora.

Num momento em que a sala de reunião estava cheia de gente do setor administrativo, Adalberto, ainda invisível graças à sua fórmula (que agora carregava em frasco de colírio), conectou-se à impressora da rede interna.
Pegou um dos computadores liberados e digitou:


"Você é a mulher mais linda dessa empresa. Desde o dia que te vi, meu coração pulsa diferente.
Ontem, sonhei com você três vezes.
Hoje, me pergunto se não está na hora de parar de sonhar e começar a viver.
Assinado: Seu admirador secreto... do Financeiro."


Fonte: Arial 12
Negrito: no “mulher mais linda”
Rodapé: nenhum

Clicou em “Imprimir”.

Local da impressão: Sala de Reunião 2.
Reunião em andamento: Dona Neide, Cláudia, e mais quatro gerentes.

O papel saiu da impressora como um profeta.

Cláudia foi a primeira a pegar.

Leu.
Arregalou os olhos.
Sorriu como quem encontrou um segredo.
Virou-se pra dona Neide.

— Gente... isso aqui acabou de sair da impressora. AGORA.

Dona Neide pegou, leu, franziu o cenho.
— “Do Financeiro”? Quem do financeiro estava na rede agora?

E, claro, só um computador estava liberado naquela hora: o do Ednilson.
Alguém foi verificar.
E pronto.

Nova convocação.
Dona Neide, dessa vez séria.
Cláudia já abrindo um novo grupo de WhatsApp com o título “Admiração ou Assédio?”.

Ednilson tentava se explicar:
— EU NÃO ESCREVI ISSO! EU TAVA NA COPA! EU TAVA TOMANDO ACTÍVIA!

Guto, ao lado, com olhar de pena e pânico, como se estivesse prestes a ser arrastado junto.

No fundo da sala, Adalberto, já visível, mexia nos papéis como se estivesse atualizando o inventário.
Mas em seu bolso, o frasco da fórmula.
E no seu olhar, o brilho de quem entende:

“A verdade é frágil. A impressão, permanente.”

Adalberto e o Beijo Impossível

 O relógio marcava 12h47 no Soluções Integradas Alfa. No segundo andar, a copa corporativa era território neutro durante o almoço. O micro-ondas apitava como uma sirene triste e o cheiro de lasanha congelada pairava no ar feito promessa de gastrite.

Ali estavam Guto e Ednilson — dois colegas de setor, amigos de longa data e representantes do mais clássico estereótipo hétero de empresa:
– falavam alto,
– zombavam dos outros,
– chamavam qualquer cuidado estético de “frescura”.

Adalberto, do canto da escada, observava. Não por julgamento. Por oportunidade.

E ela chegou.
O frasco estava no bolso desde cedo.
O plano, simples.
O efeito, devastador.

Adalberto girou a tampa.
O tempo parou.

O mundo virou vitrine de loja: tudo imóvel, sem som, sem vida.
O vapor do macarrão parou no ar.
A colher caiu sem cair.
Até o ponteiro do relógio ficou congelado, quase ofendido.

Com o mesmo cuidado de quem arruma uma vitrine, Adalberto foi até os dois.
Inclinou os rostos.
Puxou o pescoço de um, ajeitou o queixo do outro.
Encaixou os lábios.
O toque era leve, falso, simulado, mas convincente o bastante.

Foto.

Depois, tirou o celular da mochila de um deles e enviou, no grupo de trabalho “Equipe Alfa – União e Foco”:

“Que esse momento nunca acabe ❤️”

Com a imagem anexada.

E então, com o frasco já na mão, ele ouviu um barulho sutil:

passos.

Na escada.

Era Cláudia.
A funcionária de RH, fofoqueira profissional, olhos treinados como radar de novela mexicana.
Subia com pressa, café numa mão e celular na outra, quando Adalberto girou a tampa.

O tempo voltou.

PLIM.

E Cláudia, no topo da escada, viu.

Os dois homens ainda próximos. A atmosfera confusa.
Guto afastando o rosto, Ednilson arregalando os olhos.
Ambos pareciam ter acordado de um transe.

Cláudia arregalou os olhos de um jeito que, se fosse desenho animado, teria voado para trás.

EITA.
MEU PAI ETERNO.

Ela desceu correndo e, sem pensar duas vezes, gritou no corredor:
TÁ ROLANDO BEIJO NA COPA. ENTRE GUTO E EDNILSON! NÃO É BRINCADEIRA, EU VI! E TÁ NO GRUPO!

A mensagem já circulava.
Os celulares apitavam como cigarras.
Gente ria. Gente torcia o nariz.
E Guto tentava apagar a mensagem do grupo, suando como quem fez dívida com agiota.

— EU NÃO MANDEI ISSO!
— MAS TÁ DO SEU NÚMERO, GUTO! — alguém respondeu.

Ednilson só murmurava:
— Isso é montagem, é montagem... não sei o que tá acontecendo...

Adalberto?
Sentado na copa, comendo uma barra de cereal light e analisando o rótulo, como se o escândalo ao redor fosse parte de um documentário sobre pássaros migratórios.

Cláudia não deixou barato:
— Eu sempre achei esses dois... intensos demais. A gente percebe, a gente percebe!

O chefe chegou, a confusão aumentou, alguém invocou “direitos trabalhistas” e até sugeriram uma palestra sobre diversidade (ironicamente organizada por Ednilson).

Mas nada tirava o brilho daquele momento:
a aparição de Cláudia no topo da escada,
o clique de uma foto que nunca aconteceu,
e a risada abafada de Adalberto ao ver o mundo tentando entender o que só ele sabia.

O tempo é relativo.
Mas a vergonha... essa é eterna.


Adalberto e a Reunião Inexplicável


Dois dias após o episódio do beijo-surpresa e da aparição mística de Cláudia na escada, a empresa Soluções Integradas Alfa ainda respirava o perfume de escândalo misturado com café requentado.

Os memes circulavam nos bastidores.
As piadas eram sussurradas no corredor.
E o grupo “Equipe Alfa – União e Foco” estava tão silencioso quanto uma igreja às quatro da manhã.

Foi então que, na manhã de quinta-feira, dona Neide, gerente geral e dona da empresa, chamou os dois envolvidos para uma conversa.
Tom de voz calmo.
Olhar firme.
E aquele blazer florido que ela usava só em ocasiões delicadas.

— Ednilson. Guto. Na minha sala. Agora.

Eles se entreolharam com o olhar de dois náufragos vendo a tempestade chegar.

Sentaram-se à frente da mesa de vidro.
Dona Neide cruzou as mãos. Suspirou.

— Olha... eu não vou ser careta aqui. Cada um tem sua vida. Seus gostos. Seus momentos. Mas aqui é uma empresa, um ambiente de trabalho.

Os dois arregalaram os olhos.

— Como assim? — disse Guto.
— Eu não sei o que a senhora quer dizer… — completou Ednilson.

Ela puxou o celular.
Colocou a tela virada pra eles.

A foto.

A famosa.
A polêmica.
A indecifrável.

Os dois rostos colados.
A copa ao fundo.
E o vapor do macarrão formando uma aura quase divina atrás.

— Não é o caso de demissão. — disse Neide, com voz maternal — Mas se vocês têm algo um com o outro, só peço que respeitem o ambiente profissional. Não é lugar pra esse tipo de manifestação.

Guto gesticulou como quem se afoga.

— Dona Neide, eu JURO que isso não aconteceu! Eu não beijei ninguém! Eu nem sei o que é isso!

— Isso é montagem! Montagem! — reforçou Ednilson, quase tropeçando nas palavras.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Então vocês não estão…?

— NÃO! — gritaram os dois, em uníssono, ofegantes, corados, suando mais que café passado.

Ela olhou com uma leve compaixão e disse:

— Olha, se vocês ainda não se assumiram, tudo bem. Eu só peço: conversem. Se organizem. Mas não tragam isso pro grupo da empresa. Tem cliente, tem parceiro vendo aquilo ali… a Cláudia já veio aqui me mostrar três prints. Três!

Silêncio.

Os dois saíram da sala sem entender se estavam sendo punidos ou convidados a um relacionamento oficial.

E no fundo da copa, atrás da porta entreaberta, Adalberto mastigava sua barra de cereal light.
Sem rir.
Sem sorrir.
Apenas com um olhar contemplativo.

Porque não há graça maior do que ver o mundo tentando resolver um problema que nunca existiu
pelo menos, não no tempo deles.

Adalberto e o Reverso do Tempo

 Após semanas testando a fórmula, Adalberto estava mais ousado. Já tinha feito compras grátis, evitado filas de banco, espionado reuniões e até assistido filmes inteiros no cinema sem pagar — saía antes do tempo voltar e ninguém via.

Mas ele começou a perceber pequenos efeitos colaterais.

No início, eram apenas incômodos:
– um zumbido no ouvido,
– formigamento nas mãos,
– uma leve tontura quando reativava o tempo.

Mas logo vieram os sinais mais graves.

Certa manhã, ao congelar o mundo novamente para pegar uma garrafa de uísque importado (edição de colecionador), notou que uma mosca ainda voava.

Ela o encarava.
Sim, encarava.

Não era possível — tudo deveria estar parado.

Assustado, saiu correndo do mercado (com o uísque, claro).
Mas algo estava diferente.

No caminho de volta, passou por um espelho de loja e viu algo impossível:

Seu reflexo estava atrasado.

Ao piscar, o reflexo demorava. Ao sorrir, o reflexo ficava sério.
Era como se ele tivesse deixado partes de si presas no tempo parado.

E o mundo começou a reagir.

Pessoas olhavam para ele com estranheza, mesmo sem saber por quê. Cachorros latiam ao vê-lo. Crianças choravam. O espelho do banheiro não refletia seus olhos de forma exata.

E então, na madrugada de uma segunda-feira, veio o pior:

Ele acordou antes de o tempo acontecer.

O relógio marcava 03h45, mas tudo estava parado. Não por sua fórmula — ele não a havia usado. Era como se agora ele vivesse antes do tempo.

Andava por ruas onde os jornais ainda não tinham chegado, onde os pássaros estavam no ar, mas imóveis, onde nada existia ainda.

Quando o tempo voltava, ele reaparecia em momentos que não lembrava de viver. Pessoas lhe contavam conversas que ele não teve. Apontavam mensagens que ele jamais escreveu.

Adalberto estava se desfazendo no tempo.

Cada vez que usava a fórmula, um pedaço dele ficava no mundo congelado, preso num eco invisível, que talvez risse, talvez chorasse — e talvez estivesse ganhando consciência própria.

Ele tentou parar.
Enterrou o frasco.
Jogou os papéis no fogo.

Mas era tarde.
O tempo já o conhecia.
E agora o tempo queria algo em troca.

Adalberto e o Tempo Suspenso

 Era uma manhã de quarta, dessas que parecem não querer acontecer. O céu estava da cor de papel amarelado e o vento passava como funcionário cansado — sem vontade e sem pressa.

Adalberto, no entanto, estava empolgado.
Depois de noites insones misturando fórmulas, cálculos, bulas vencidas e instruções de brinquedo científico da infância, ele descobriu.

Não a cura do câncer.
Não a viagem interestelar.
Mas algo muito mais útil para alguém como ele:

Um composto que parava o tempo.

Não era coisa de cinema — o tempo parava para todos, exceto para Adalberto. O mundo congelava: pássaros no ar, pisca-piscas parados no vermelho, pessoas com a boca entreaberta no meio da palavra.

E, claro, ele usou o poder com a mesma responsabilidade com que uma criança usa tinta guache numa parede branca.

No primeiro uso, não foi atrás de bancos, cofres, nem do Vaticano.
Ele foi ao supermercado Império dos Alimentos, o mais caro da cidade. Um lugar onde um pedaço de queijo brie custava o salário mínimo em parcelas suaves.

Entrou como quem apenas queria um café e bolacha.
Disfarçou-se com boné, máscara e o olhar vago dos que comparam preço de azeitona.

E então, discretamente, ativou o composto.

O mundo parou.
O som desapareceu. Os ventiladores congelaram no ar. A moça do caixa ficou paralisada com a mão suspensa, segurando um troco.

Adalberto sorriu como quem viu a eternidade e ela estava em promoção.

Começou a encher o carrinho com precisão cirúrgica:
– Queijos importados.
– Vinhos com nomes que ele não sabia pronunciar.
– Salmão norueguês.
– Perfumes franceses.
– Um conjunto de panelas que vinha com uma assinatura da chef do MasterChef.

Ao sair do mercado, empurrou o carrinho até seu carro — um Uno reformado com mais adesivos do que lata.
Guardou tudo.
Voltou.
Recolocou o carrinho no lugar, agora vazio.

E, do lado da sessão de cereais, ativou o retorno do tempo.

— PLIM.

A vida seguiu.
Mas não no supermercado.

Em cinco minutos, a confusão começou.

— Ué, cadê o brie da promoção?
— O senhor da adega disse que viu as prateleiras vazias do nada.
— Sumiu um jogo de panelas!
— Alguém levou 6 perfumes de uma vez?
— Olha aqui nas câmeras...

As gravações mostravam o seguinte:
— produtos sumindo sozinhos.
— o carrinho andando sem ninguém.
— um vinho flutuando e desaparecendo.

Teorias começaram a pipocar:
Fantasma de um antigo açougueiro.
Milagre.
Teste da Globo.
Presença demoníaca ligada à importação de queijos suíços.

O gerente chamou a polícia, que chamou um padre, que chamou um primo que entendia de câmeras.

Adalberto, em casa, cortava o queijo com uma faca nova que nem sabia que vinha com a tábua. Serviu-se uma taça e ligou a TV: estava passando a reportagem ao vivo.

“Mistério no Império dos Alimentos. Produtos somem do nada e câmeras registram o impossível...”

Ele sorriu.
E anotou mentalmente:
“Próxima parada: relojoaria do shopping.”

Porque para Adalberto, o tempo era relativo.
E a moral...
Bem, essa ele já havia deixado congelada faz tempo

Adalberto e o Grupo de Oração

 Adalberto não era exatamente religioso, mas achava a igreja um lugar excelente para testar os limites da invisibilidade.

No domingo, como de costume, sentou-se nas últimas fileiras da Paróquia São Jorge de Capadócia — a mesma onde os fiéis se benziam até ao ver o panfleto do dízimo.

Era o último domingo do mês, dia do Grupo de Oração das Famílias. Um encontro animado, com louvor, partilha e, claro, WhatsApp fervendo com mensagens de fé, emojis de pombinha e gifs de Jesus piscando.

Adalberto, com seu celular discreto e sua mente afiada como navalha de barbeiro antigo, viu ali um campo fértil.

Pediu emprestado o celular da dona Sueli — senhora piedosa, conhecida pelas camisetas com frases como "Com Jesus no barco, tudo vai bem" —, com a desculpa de "ajustar o brilho".
Em menos de 15 segundos, fez o necessário.

No grupo do WhatsApp "Famílias em Cristo ❤️🔥", apareceu a seguinte mensagem, enviada do número da própria Dona Sueli:

“Irmãos, o louvor está bonito, mas o cheiro do desodorante vencido de alguns aqui tá me levando a orar em línguas de verdade.”

“E, só pra constar: a irmã Marileide desafina mais que porta de ferro enferrujada.”

O grupo, acostumado com mensagens de bênçãos e pedidos de oração, parou.

Marileide, que nesse momento estava exatamente no refrão de “Restaura-me, Senhor”, sentiu as palavras murcharem na garganta.

— Foi você, Sueli? — perguntou alguém, baixinho.

Sueli arregalou os olhos, o terço caiu da mão.
— O quê?! Eu nem sei digitar essas coisas!

O padre Valter, percebendo o clima carregado, tentou um salmo de apaziguamento, mas já era tarde:
A irmã Marileide foi embora antes do Amém final.
A Dona Sueli jurava de pés juntos que “alguém mexeu no meu aparelho”.
E as três irmãs do grupo de canto se recusaram a liderar o próximo louvor.

Na fileira do fundo, Adalberto apenas guardou o celular no bolso e se levantou calmamente.

Passou pela pia batismal, molhou os dedos, fez o sinal da cruz com convicção, e sussurrou para si mesmo:

“Até os anjos precisam de um pouco de entretenimento.”

E saiu, deixando para trás um grupo dividido entre o perdão cristão… e a vontade de descobrir quem foi o agente do caos que fez o culto virar comédia.

O invisível e o amigo oculto

 Era dezembro. O calor grudava nas costas e o ventilador da repartição girava como quem hesitava entre viver e pedir aposentadoria.

No Setor de Ajustes e Inconsistências Contábeis, a decoração natalina parecia feita por alguém que odeia dezembro: três bolas murchas, uma rena sem olho e uma fita vermelha que mais lembrava esparadrapo.

Mas havia o amigo oculto.
E isso bastava para gerar tensão.

Adalberto, claro, participava — embora ninguém lembrasse de tê-lo tirado, nem de ter tirado ele. Invisível, como sempre. Mas o nome estava na lista, letra torta, entre o do chefe e da moça do protocolo.

No dia da revelação dos presentes, reuniram todos na sala de reuniões. Panetone genérico, refrigerante quente e microfone com eco. O chefe abriu os trabalhos com um discurso que era uma ameaça passiva:
— O importante é a intenção, não o valor. — disse, encarando o financeiro.

Quando chegou a vez de Ricardo, o almofadinha do setor de contratos, ele foi até a frente e anunciou, sem saber que já era parte de um teatro montado:
— Meu amigo oculto é alguém... muito especial. Discreto. Gente boa... às vezes meio esquisito, mas... enfim.

Entregou o presente: uma caixa de papel craft, com fita azul e um cartão que dizia apenas:
“Seja mais cheiroso em 2025.”

Dentro, um desodorante roll-on e um perfume da marca “Fierce Instinct” — embalagem duvidosa, promessa exagerada.

A sala explodiu em risadinhas abafadas.
Adalberto, do canto, cruzou as pernas com calma.

Foi então que, discretamente, o presente seguinte apareceu no colo de Ricardo, sem ninguém saber quem o havia deixado ali. Um envelope. Sem nome.

Ricardo abriu.
Dentro, uma foto impressa: ele, sem camisa, num grupo de musculação de Facebook, com a legenda:
“Se você for meu amigo oculto, me dá suplemento de verdade.”

A sala parou.
Alguns engasgaram com a uva passa.
Outros disfarçaram o riso.

— Isso... isso não é meu! — disse Ricardo, o rosto já beterraba.
— Que coisa feia... — murmurou Dona Zuleica, com uma expressão de missa interrompida.

Ricardo jurava que nunca tinha mandado aquilo.
Mas a imagem estava impressa, plastificada e com o carimbo da impressora da sala ao lado.

A suspeita virou riso.
O riso virou desconforto.
O chefe pediu que “todos voltassem aos seus lugares” e que “o espírito natalino não fosse perdido por bobagens”.

Ninguém descobriu quem colocou o envelope no colo de Ricardo.
Mas Adalberto, do seu canto, tirou um bombom da caixinha e murmurou, quase para si mesmo:

“Amigo oculto é só mais uma forma social de dizer o que ninguém tem coragem.”

E passou o dedo na borda do copo de plástico como quem assina o mundo em silêncio.

Adalberto e o Espelho de Facebook

 Adalberto agora usava óculos de leitura e pastava os cabelos grisalhos com um pente pequeno que ficava sempre no bolso da camisa. Trabalhava no setor de tecnologia da Translog Express — nome bonito para “arruma impressora e troca senha do Wi-Fi”.

Ninguém sabia ao certo onde ele havia aprendido tanto de computadores, mas o fato era que Adalberto entendia de máquinas como padres entendem de pecado: por dentro.

Na empresa, havia muitos que lhe passavam batido, como sempre. Mas um deles — o Matheus do marketing — fazia questão de lembrar que Adalberto estava ultrapassado.

— O tio do TI mexe no Paint! — dizia rindo alto.
— Vai ver ele programou o Windows 95!

Matheus era do tipo que postava selfie até em enterro. Tinha cabelo com luzes, sorriso de consultório caro, e um Facebook cheio de frases motivacionais. Um personagem público de si mesmo.

Certa tarde, enquanto Matheus deixava o computador ligado com a senha salva no navegador — uma imprudência infantil diante de um homem como Adalberto —, a oportunidade surgiu como quem oferece maçã ao jardineiro.

Entrou no Facebook dele. Rápido. Sem hesitar.
Abriu o campo de publicação.

O que postou?
Não pornografia, nem xingamentos. Nada assim.
Foi pior.
Foi o que o próprio Matheus mais temia:
Verdade.

Adalberto, com a precisão de um poeta de guerra, escreveu:

“Tem dias em que eu só queria abraçar meu travesseiro e chorar ouvindo Sandy & Júnior.
Quando estou sozinho, finjo entrevistas no espelho, como se fosse famoso.
Às vezes uso meias do Pikachu e acho que ninguém percebe.
E sim, eu dancei Rouge na festa junina de 2004. Inteira.”

E postou.

Não marcou ninguém. Não botou risada. Apenas deixou lá, seco, direto, impessoal.
Como um bilhete deixado na porta da alma.

Em menos de 10 minutos:
— Curtidas.
— Risos.
— Gente comentando “força, irmão!”
— Um colega mandou: “Você é corajoso demais, eu nunca conseguiria admitir isso…”
— Uma ex-namorada respondeu: “Você sempre foi fofo, mesmo escondendo.”
— Um desconhecido compartilhou com a legenda: “Que homem sincero!”

Matheus, ao ver, quase caiu da cadeira.
Tentou apagar, mas já era tarde.
O post tinha virado história.

Correu dizendo que foi hackeado, que aquilo era montagem, que “não sou eu!”.
Mas ninguém acreditou.
Porque, no fundo, era ele.
E o que escandaliza não é a mentira — é a verdade que a gente finge não carregar.

Adalberto?
Na sala ao lado, recompunha a rede de impressoras.
Sem pressa.
Sem culpa.
Com um leve sorriso nos lábios.

E se perguntassem por quê, talvez dissesse algo assim — meio Pessoa, meio vingança:

“O que revelo nos outros é o que escondo em mim.
E, às vezes, mostrar ao mundo o que alguém é,
dói mais do que ser invisível.”

Adalberto aos Dez Anos, ou A Arte de se Ausentar de Si

 Adalberto tinha dez anos e já conhecia o sabor ácido da invisibilidade. Não a invisibilidade mágica dos contos, mas a outra — aquela que se instala quando ninguém espera nada de você, nem mesmo que responda à chamada.

Era o tipo de criança que, mesmo de frente para o professor, era chamada de “o de trás”. Seu caderno era limpo, não por zelo, mas por falta de anotações. Tinha os olhos sempre meio vazios, como se parte dele tivesse ficado em casa ou não tivesse vindo com o corpo.

Naquela manhã, a sala do 5º ano estava entregue à distração. A professora escrevia datas no quadro, o ventilador girava com a força exata de um suspiro, e havia um chiclete no bolso de Adalberto — daqueles cor-de-rosa que perdem o gosto em vinte segundos.

Na carteira da frente, sentava-se Fabiane. Cabelos longos, castanhos e armados, sempre com presilhas coloridas e um laço exagerado. Era a menina que falava alto, ria alto e andava como se a escola fosse passarela. Para Adalberto, ela era uma peça muito viva num mundo muito esmaecido.

Talvez por isso, ou por outra razão que nunca admitiria nem para si mesmo, ele fez o que fez.
Mastigou o chiclete. Macio, quente.
E, num impulso quase teatral — como se estivesse de fora, observando-se —, colou o chiclete bem no centro do cabelo de Fabiane. Apertou com firmeza. Sentiu a textura se perder entre os fios.

Logo depois, como se sua própria alma usasse máscara, apontou com o dedo curto e decidido:
— Professor! O Caio que fez!

Caio. O menino mais calado da sala. Que sentava ao lado da lixeira. Que gaguejava ao ler em voz alta. Que guardava os lápis por ordem de cor.

A professora olhou. Fabiane gritou. O caos desceu como cortina.
— Tem um negócio no meu cabelo!!! — gritou ela, puxando os fios, os olhos em pânico.
Chiclete no cabelo é sentença. Não há apelação. Apenas corte.

A mãe foi chamada. Tesoura em mãos. Saíram com Fabiane chorando, segurando uma mecha no bolso do casaco e um silêncio vingativo no olhar.

Caio, perplexo, foi levado ao diretor.
Tentou se explicar.
— Eu... eu não...
Mas a palavra "não" não corta o chiclete. Nem convence quando vem de um menino que já ninguém ouve.

Adalberto ficou sentado. Em silêncio. Ninguém o interpelou. Ninguém o notou.

E ali, entre a carteira e o vazio, teve um pensamento que não sabia nomear: uma culpa sem forma, uma espécie de peso que não doía, mas que se alojava — como um segundo corpo dentro do seu.

Talvez, se fosse Fernando Pessoa, teria dito:

“Fiz o que não fiz,
e o outro sofreu o que não era dele.
A justiça não é cega —
só olha para o lado errado.”

Mas Adalberto não disse nada. Nunca dizia.
Só mastigava o silêncio, como quem espera que o gosto volte.

O Invisível e a Proposta no Grupo Corporativo

 Era uma segunda-feira pós-feriado na Translog Express. A impressora havia voltado a engasgar, a cafeteira parecia cuspir óleo diesel, e os ânimos no setor de atendimento estavam suspensos por um fio de paciência.

Adalberto, como sempre, era o móvel humano da sala: ninguém tropeçava nele porque ninguém percebia sua presença. No crachá, o nome desbotado era só um lembrete de que ele ainda estava oficialmente ali.

Um mês havia se passado desde o escândalo Douglas-Breno, que ainda ecoava em cochichos no refeitório. Mas como toda tragédia de firma, acabara substituída por planilhas atrasadas e bolos secos no aniversário de setor.

Naquela manhã, quem chamava atenção era Flavinho do almoxarifado. Jovem, metido a galanteador, com gel demais no cabelo e botão de menos na camisa. Dizia-se “bom de lábia” e “fera no toque da conquista”.

O celular de Flavinho estava destravado e abandonado em cima de uma pilha de formulários. E era aí que Adalberto, eterno maestro do caos invisível, encontrava sua batuta.

Aberto no WhatsApp. O grupo: "Equipe Translog – Oficial 🚛"
44 membros. Supervisores, RH, até a dona da empresa, Dona Márcia — casada, respeitadíssima, do tipo que fala “querido” e demite com um aceno.

Adalberto respirou fundo. Digitou com precisão cirúrgica:

“Dona Márcia, eu não aguento mais esconder…
Seus olhos me perseguem no estoque, seus passos ecoam no meu coração.
Sei que é casada, mas a paixão não respeita aliança.
Vamos conversar, só nós dois. Um vinho, talvez.
Flávio.”

Mandou.
No grupo da firma.
Com emoji de coração, taça de vinho, e uma rosa.

Silêncio. Por três segundos.

Depois:
— “????????”
— “É sério isso?”
— “Tem criança lendo aqui”
— “É hackeado ou surto?”
— “Rapaz…”

Dona Márcia digitando...
Digitando...
Digitando...
Parou.
Digitando de novo.
A tensão dava pra cortar com colher de plástico.

A mensagem veio:

“Flávio, sugiro que se dirija imediatamente ao RH. E, por gentileza, use camisas com botões fechados.”

Seguiu-se uma enxurrada de reações: carinhas chorando de rir, gifs de explosões, alguém mandou um áudio imitando violino triste.

Flavinho, que voltava do banheiro mascando chiclete com a confiança de um pavão, parou ao ver os olhares. Pegou o celular. Leu.
Empalideceu.
— EU NÃO MANDEI ISSO!

— Foi você mesmo, irmão. Tá no grupo oficial, tá assinado, tem até flor!

Flavinho foi chamado ao RH sob o olhar congelado de Márcia. Saiu meia hora depois com olhos vidrados, camisa fechada até o pescoço e sem gel no cabelo.

Na sala, Adalberto retornou à sua mesa. Abriu a planilha “itens vencidos 2023”.
Sorriu.
Como diria seu autor favorito, Millôr Fernandes:

“A vida é uma peça de humor. O problema é que quase ninguém acha graça enquanto está no palco.”

Mas Adalberto achava. Achava muita.